Título: Cresce o valor do calote dos clientes industriais
Autor: Sérgio Bueno, Vanessa Jurgenfeld e Marli Lima
Fonte: Valor Econômico, 22/09/2005, Empresas &, p. B8

Se a inadimplência do setor público sempre foi um problema a ser combatido pelas concessionárias de energia, um novo motivo de dor de cabeça aos executivos do setor elétrico está surgindo: cada vez mais a indústria atrasa o pagamento de suas contas de energia. Segundo levantamento feito pela Associação Brasileira dos Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) junto a 16 concessionárias com capital aberto em bolsa de valores - que representam 62% do mercado nacional - , as dívidas com menos de 90 dias da indústria somavam em junho de 2004 R$ 650 milhões. Em junho desse ano, o valor aumentou para R$ 754 milhões, um incremento de 16% na inadimplência. "Os índices de uma forma geral tiveram uma melhora, mas não no segmento industrial", diz o presidente da Abradee, Luiz Carlos Guimarães. Um dos principais fatores desse aumento do número de mau pagadores industriais é provavelmente o fim de alguns subsídios que antigamente eram dados às tarifas dos grandes clientes industriais. E quem pagava por esses subsídios eram os clientes residenciais, rurais ou comerciais, ligados em baixa tensão. No ano passado, porém, começou o processo de descruzamento desses subsídios. A partir daí, o consumidor residencial passou a ter reajustes menores, enquanto as correções tarifárias da indústria passaram a ser acima da média. No mês passado, por exemplo, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou uma redução de 0,9% para as contas dos clientes residenciais, comerciais, rurais e industriais da Elektro, que são atendidos em baixa tensão. Mas, para os clientes ligados em alta tensão, como os industriais, o reajuste autorizado pela Aneel foi de 6,24%. Na Companhia Energética de Brasília, os consumidores residenciais tiveram direito a uma redução na conta de 4,78%. Já os industriais amargaram um aumento de 3,22%. A Eletropaulo fez em julho uma redução de 7,8% nas tarifas dos consumidores de baixa tensão, como as residências. No caso dos clientes de alta tensão, como as indústrias, o aumento chegou a 10,87%. Na Eletropaulo os executivos já sentiram essa mudança de comportamento dos clientes industriais. Segundo Arnaldo Silva Neto, diretor da concessionária, houve maior atraso no pagamento de setores industriais que não são ligados à exportação, como alimentos e plásticos, e que por isso apresentam uma certa estagnação no seu atual desempenho. A área de serviços, como hotéis e restaurantes, também têm apresentado aumento da inadimplência. Na Eletropaulo houve uma mudança radical no perfil dos inadimplentes: a indústria aumentou em 40% o número de maus pagadores, enquanto o setor público diminuiu a inadimplência. Somando também as dívidas acima de 90 dias, hoje as prefeituras devem R$ 388 milhões à empresa, enquanto a indústria junto com o comércio devem R$ 724 milhões. Já o consumo residencial e de baixa renda, especialmente, que tiveram reajustes bem menores que a média, tiveram aumento da adimplência. " A maior inadimplência é verificada sempre onde há maior dificuldade de corte. No caso das industriais, muitas vezes elas conseguem liminares judiciais que impedem a suspensão do fornecimento", diz Guimarães.