Título: Proposta da Fazenda traz impacto setorial distinto
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Brasil, p. A3
Os setores automotivo, calçadista, têxtil e de máquinas e equipamentos pagarão uma conta mais salgada pela abertura comercial caso o governo decida apoiar a proposta do Ministério da Fazenda para as negociações da Organização Mundial de Comércio (OMC). Levantamento da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) demonstra que esses segmentos terão que efetuar um corte muito superior à média da indústria brasileira. Segundo proposta publicada pelo Valor, a Fazenda defende a adoção da fórmula Suíça com coeficiente 15, que resultaria em um corte da tarifa máxima consolidada pelo Brasil na OMC para produtos industriais de 35% para 10,8%. Na média, a tarifa cairia 3,4 pontos percentuais, saindo de 10,8% para 7,4%. Em material de transporte, principal item da pauta de exportação brasileira de manufaturados, o corte das tarifas seria de 11,3 pontos percentuais. As tarifas aplicadas cairiam 8,6 pontos percentuais para calçados, 7,6 pontos para têxteis e 4,9 pontos para máquinas e equipamentos. Esses setores são mais protegidos que a média , por isso sofrerão cortes mais amplos de tarifas. Em calçados e automóveis, o Brasil chega a cobrar 35% de imposto de importação - o máximo consolidado pelo país na OMC. "Nessa negociação, você não pode se guiar pelo macro. É preciso olhar setor por setor. O diabo mora nos detalhes", diz Rafael Benke, gerente de comércio exterior da Fiesp. "Se houver ganhos substanciais para o Brasil nas negociações da OMC, podemos flexibilizar algo na indústria, mas não pode ser mais que o necessário", ressalta, classificando o corte proposto pela Fazenda como "violento". De acordo com Carlos Cavalcanti, diretor-adjunto do departamento de comércio exterior da Fiesp, a entidade realizou um levantamento com 90 setores produtivos para identificar os interesses defensivos e ofensivos na indústria. A Fiesp está apresentando esse estudo ao governo ele poderá ser utilizado pelos negociadores durante a Rodada Doha e negociação de acordos bilaterais, como o Mercosul-União Européia. "A indústria tem interesses ofensivos na Rodada Doha. Preciso garantir acesso aos mercados para ampliar suas exportações", disse o executivo, citando como exemplo o setor siderúrgico. Cavalcanti admitiu que o Brasil pode até adotar a fórmula Suíça, defendida hoje por Estados Unidos e União Européia. "O país não precisa ficar isolado na ABI", disse, referindo-se a fórmula oficialmente defendida por Brasil, Argentina e Índia. Ele ressaltou que tudo depende do coeficiente, índice que vai ditar a profundidade dos cortes. (RL)