Título: Queda em alimentos garante nova deflação
Autor: Raquel Salgado
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Brasil, p. A4

Conjuntura No atacado, in natura compensa alta de combustíveis, mas inflação já voltou ao IPC da Fipe

A queda dos preços dos alimentos in natura vai possibilitar que a deflação no atacado persista em setembro, apesar do aumento no valor dos combustíveis. No varejo, entretanto, as taxas de inflação serão positivas, pois o impacto da alta da gasolina é mais imediato e há outros pontos de pressão como o reajuste em planos de saúde e nas tarifas de água e esgoto. Economistas revisaram suas projeções para os Índices Gerais de Preços (IGPs), mas mantiveram os números no terreno negativo. Carlos Thadeu Gomes Filho, do grupo de conjuntura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), espera agora que o IGP-DI, que apura a variação de preços dos dias 1º a 30 de cada mês, fique negativo em 0,23%, contra uma projeção de menos 0,55% antes do reajuste da gasolina. "O patamar ainda baixo nos preços de alimentos impede que a inflação seja positiva", diz. Na segunda prévia de setembro, os produtos agrícolas cederam 3%. A consultoria MB Associados projetava um IGP-M, que mede a evolução dos preços entre os dias 21 do mês anterior e 20 do corrente, em menos 0,5% e agora espera deflação de 0,05%. Outra consultoria, a MS Consult trabalhava com IGPs em torno de menos 0,5% e deve revê-los para deflação de 0,2%. A segunda prévia do Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) de setembro, calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), mostrou pela quinta vez consecutiva variação negativa, desta vez de 0,54%, aprofundando a deflação de 0,49% vista na mesma medição de agosto. Porém, essa prévia sentiu apenas em parte o reajuste dos preços da gasolina, que foi dado no dia 10 de setembro. O item combustíveis e lubrificantes subiu 1,14%, contra menos 0,18% do mês passado. O efeito mais forte ainda está por vir. Entre os meses de setembro e outubro, segundo cálculos de Sergio Valle, da MB Associados, a elevação nos preços da gasolina, diesel e querosene vai impactar o IGP em 0,59 ponto percentual, sendo que 0,3 ponto virá agora em setembro e o restante em outubro. No lado do consumidor, a deflação parece ter acabado e a variação de preços já passou para o terreno positivo. Na segunda quadrissemana deste mês, período de 30 dias até 15 de setembro, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), calculado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), avançou para 0,03%, frente uma variação negativa de 0,11% na medição imediatamente anterior. Antes dessa elevação, o IPC chegou a registrar três deflações seguidas. A alta da gasolina e do diesel, que ficaram, em média, 7,6% e 9,6% mais caros nas bombas da capital paulista, obrigou a instituição a rever a projeção para a inflação de setembro de 0,25% para 0,45%. Pelas contas de Paulo Picchetti, economista da Fipe, o aumento dos combustíveis vai pesar 0,2 ponto percentual no IPC de setembro e mais 0,28 nos meses de outubro e novembro. A pressão para baixo vinda dos alimentos in natura e o impacto menor das tarifas públicas, uma vez que os preços de energia ficaram menores, ajudam a segurar a inflação. No Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo IBGE, e que baliza o sistema de metas de inflação do Banco Central, o impacto dos combustíveis será de 0,31 ponto percentual, considerando uma alta de 6,5% no diesel nos postos e de 6,1% na gasolina, pelos cálculos de Gomes Filho, que espera IPCA de 0,38% neste mês. Picchetti diz que os alimentos in natura ainda seguem com preços em queda no varejo, mas que há altas nos industrializados. "A recomposição da massa salarial aliada ao aumento de itens como embalagens e também do custo dos transportes (efeito gasolina) dão margem para preços um pouco mais altos", comenta. O índice de difusão, por exemplo, que avalia a quantidade de itens em alta dentro do IPC, saltou de 48% para 55%. No mês de outubro, a tendência é que a inflação no atacado volte para estabilidade ou até apresente variações positivas. A queda dos preços industriais já está perdendo força, avalia Marcela Prada, da Tendências Consultoria Integrada. Como o mesmo processo deve ocorrer nos preços agrícolas, os IGPs voltam a subir, ainda que levemente. O preço da arroba do boi no mercado futuro, por exemplo, já está subindo.