Título: Repasses ao PT não vieram de empréstimos, conclui CPI
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Política, p. A6

A CPI Mista dos Correios concluiu que não há provas de que os empréstimos feitos por Marcos Valério de Souza, acusado de operar o pagamento de um mensalão no Congresso, foram repassados ao PT, segundo mostra a análise das mais de 40 mil operações realizadas pelas empresas de Valério em 75 contas de nove bancos diferentes. Os financiamentos às empresas de Valério têm sido peça fundamental nas defesas do empresário e do ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, para negar a existência de um esquema de corrupção no governo Lula. Pela versão de ambos, os recursos foram usados para pagar dívidas de campanha do PT e não para comprar o voto de deputados em favor do governo. O sub-relator de movimentações financeiras da CPI, deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR), afirmou que, pela análise das contas, há duas hipóteses para explicar a origem dos recursos: "Ou os bancos Rural e BMG e as agências de Valério doaram esse dinheiro ao PT ou eles fizeram uma compensação no exterior através desses empréstimos". Fruet deu um exemplo de um empréstimo feito pela SMP&B no Banco Rural. "Entraram R$ 18 milhões, mas não se acha para onde foi esse dinheiro. Não há relação entre o empréstimo e o PT", resumiu. Reforça a tese a descoberta de R$ 1,7 milhão de saques feitos nas contas das agências de Valério em 9 de janeiro de 2003, bem antes de o primeiro empréstimo ter sido contratado pelo empresário no banco BMG, em 24 de fevereiro de 2003. Segundo Fruet, as operações de Valério comprovam "corrupção e tráfico de influência" no governo, especialmente identificada na atuação da dupla Valério e Delúbio. "As empresas apostaram num projeto de médio e longo prazos de aproximação com o governo e o PT. Ficou demonstrado, porém, que Marcos Valério foi um facilitador de negócios com o governo", disse. "O PT obteve vantagens, está claro. Mas o processo foi abortado no meio do caminho com o escândalo do mensalão". A análise dos dados pela CPI mostra, segundo Fruet, que as garantias desses financiamento foram insuficientes, houve renovações sucessivas e uma movimentação muito superior aos R$ 55,9 milhões em empréstimos declarados por Valério. A principal conta da SMP&B no Banco Rural, chamada de "caixa cheque enviado", pagou os sacadores dos recursos levantados com os empréstimos com 536 cheques. A CPI patina na identificação de outros R$ 5,8 milhões em saques feitos nas contas das empresas de Valério. Segundo Fruet, Valério pagou R$ 260,5 milhões por meio de milhares de operações pulverizadas entre suas empresas e os sacadores - na boca do caixa ou em transferências bancárias eletrônicas. "Não há relações entre entradas e saídas das contas", afirmou. "Ficou claro que há outras origens e outros destinos para esse dinheiro".