Título: Correios teve prejuízo de R$ 64 milhões
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Política, p. A6

Crise CPI tem documentos que mostram superfaturamento com transporte aéreo de cargas entre 2001 e 2005

Documentos em poder da CPI Mista dos Correios indicam que a empresa estatal teve um prejuízo de R$ 64 milhões entre 2001 e 2005 com o superfaturamento no transporte aéreo de cargas realizadas pelas empresas Skymaster Airlines e Beta Transporte Aéreo. Uma análise feita pela comissão também aponta como causa para um renitente déficit operacional dessa área dos Correios o superdimensionamento das aeronaves de transporte, a subutilização dos aviões e um aumento nas horas voadas num mesmo trecho sem a modificações de rota ou destino - São Paulo a Manaus, por exemplo. A avaliação detectou ainda a ocorrência de fraudes nas máquinas usadas por agências franqueadas da estatal em diversos estados. "Está claríssimo que houve condução de licitação e pagamentos indevidos. Houve fraude, dolo e um esquema de captação de recursos para campanhas eleitorais", resumiu o sub-relator de contratos da CPI, deputado José Eduardo Cardozo (PT-SP). Segundo ele, a análise dos documentos indica "desvio de recursos muito pesado" e o "envolvimento da diretoria dos Correios". Cardozo informou que a CPI já tem elementos para iniciar o processo de "responsabilização individual" dos apontados. "Pelos sigilos bancários, será possível saber se recursos foram parar nas contas dos diretores ou se era mesmo apenas um esquema eleitoral", disse. Em depoimento à sub-relatoria de contratos da CPI, o ex-diretor de Operações da estatal Maurício Madureira admitiu ontem ter havido "indícios" de que os preços cobrados pelas empresas responsáveis pela rede postal noturna eram "muito altos". Madureira afirmou que, em abril de 2003, coordenou um grupo de trabalho para fazer uma reavaliação dos preços sob orientação da equipe de transição do PT e do ministro das Comunicações, Miro Teixeira. Dois meses depois, o então presidente da estatal, o gaúcho Airton Dipp (PDT), teria formado outro grupo para fazer uma revisão geral da malha aérea e de renegociação dos contratos a partir da consultoria do brigadeiro Venâncio Grossi. "Todo o processo foi conduzido pela Presidência dos Correios", apontou o ex-diretor. O brigadeiro tinha ligações com a Promodal, que doou R$ 500 mil para a campanha do PT em 2002 e buscava entrar nas licitações da estatal. "A relação dos Correios com o brigadeiro é altamente suspeita. Ele é tido como um lobista com interesses nas concorrências da empresa", disse o deputado Silvio Torres (PSDB-SP). Maurício Madureira garantiu que não participou da revisão do contrato da empresa Skymaster, investigada por ter sido beneficiada na licitação do transporte aéreo de cargas para os Correios. Segundo ele, porém, a empresa apresentou preços abaixo dos parâmetros de mercado para ganhar a licitação. "Fiquei de queixo caído", disse. "Mas é uma fatalidade", emendou. Num depoimento esvaziado, Madureira foi questionado por ter assinado aditivos de contratos dias antes de sua demissão nos Correios, em junho deste ano. O deputado Silvio Torres afirmou que a Transportes Aéreos Fortaleza (TAF) foi beneficiada ao ter o contrato aditivado em R$ 338 mil. "Foi um procedimento normal, mera formalidade", disse. Torres afirmou, entretanto, que Jacques Lavoisier, dirigente da TAF, foi superior direto de Madureira nos Correios. Madureira negou ter relações com o deputado cassado Roberto Jefferson. Mas admitiu ter sido indicado para um cargo no Pará, em 1991, por Valdemir Freire Cardos, então diretor regional dos Correios e muito ligado a Jefferson. Negou também relações com Mauricio Marinho, pivô da crise política flagrado em vídeo ao receber R$ 3 mil de propina nos Correios. "Nunca me relacionei com ele". Cardozo, porém, afirmou que um consultor de Madureira, Julio Imoto, trabalhava com Marinho na arrecadação de recursos para campanhas políticas." A CPI dos Correios decidiu reconvocar Mauricio Marinho para depor na quarta-feira.