Título: Vitória em 15 Estados reforça Berzoini
Autor: César Felício, Sérgio Bueno e Ivana Moreira
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Política, p. A8

Crise Diferença entre Pont e Pomar diminui para 0,3 pontos percentuais e 2ºturno permanece indefinido

Sem o apoio dos adversários que derrotou, o candidato do Campo Majoritário à presidência do PT, Ricardo Berzoini, terá um trunfo no segundo turno da eleição interna do partido, em 9 de outubro: seu grupo ganhou no primeiro turno o diretório de 15 dos 27 Estados. Foram apenas três derrotas , no Mato Grosso, Espírito Santo e Santa Catarina. Nos sete Estados em que haverá segundo turno, duas facções do Campo Majoritário disputam entre si no Mato Grosso do Sul. A apuração da eleição petista entra hoje em seu quinto dia sem que se conheça o adversário de Berzoini. A greve dos Correios é um dos fatores que retarda a totalização dos votos em Minas Gerais, o Estado em que a contagem está mais atrasada. O diretório mineiro precisa ainda contabilizar os votos de cerca de 100 municípios , que enviaram os boletins da votação pela estatal em greve. Por causa da paralisação, os documentos não haviam chegado em Belo Horizonte até o fim da tarde de ontem. Na Bahia, só hoje serão somados os votos dos diretórios de 30 dos 218 municípios em que o partido está organizado no Estado. No boletim nacional divulgado ontem à noite, Berzoini estava com 42,3% e a diferença entre Valter Pomar (Articulação de Esquerda) e Raul Pont (Democracia Socialista) estreitara-se ainda mais. O primeiro estava com 14,8% do total e o segundo , com 14,5%. São oitocentos votos de diferença, faltando ainda 6 mil para serem apurados. Sem chances de vitória, Plínio Sampaio (APS) estava com 13,3% e Maria do Rosário (Movimento PT), com 13,1%. Os candidatos locais do Campo Majoritário foram mais votados do que Berzoini porque receberam o apoio de correntes de esquerda, abrindo espaço para os rivais no plano nacional nos diretórios municipais. No Acre, por exemplo, o senador Sibá Machado foi candidato único à presidência estadual e ficou com 1,4 mil votos. Quase o dobro de Berzoini, com apenas 893. Em São Paulo, o candidato do Campo Majoritário, Paulo Frateschi, ficou com o apoio da ala do grupo aliado à ex-prefeita da capital Marta Suplicy que votou em branco para a presidência nacional da sigla. Em razão disso, reelegeu-se com 57% dos votos, enquanto Berzoini ficou com 46% do total. Na segunda rodada, há uma tendência deste grupo apoiar o candidato do Campo, sobretudo se Raul Pont for o candidato oponente. Com a polarização do segundo turno, a tendência das novas direções estaduais vinculadas a Berzoini é carrear votos para o candidato, a menos que tenham recebido apoio de correntes diretamente vinculadas ao oponente do candidato da situação. "A tendência do Movimento PT, que votou na Maria do Rosário, me apoiou no Distrito Federal. Agora vou batalhar para levá-los aqui a votar no Berzoini", disse o novo presidente do PT de Brasília, Chico Vigilante, que teve 51% dos votos, enquanto Berzoini ficou com 37% do total. O dirigente prometeu fazer "uma coalizão de forças internas e colocar o partido em sintonia com o governo". Na próxima semana, o deputado distrital já tem agendado um café da manhã com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, para iniciar o entendimento. Não há consenso entre os petistas sobre quais dos dois possíveis oponentes de Berzoini - Valter Pomar ou Raul Pont- estaria mais fortalecido para o embate. Em São Paulo, os dissidentes do Campo Majoritário vinculados à Marta Suplicy dificilmente ficarão com Pont. Em compensação, o candidato da Democracia Socialista teria mais condições de conseguir adesões à esquerda. O candidato derrotado da APS, Plínio Sampaio, que recebeu 20% dos votos no Estado e ficou em terceiro lugar, apenas dois pontos percentuais atrás de Pomar, já avisou que não deverá apoiá-lo na nova eleição. A capacidade de agregar o voto dos adversários derrotados será fundamental para Pont ou Pomar. No Paraná, por exemplo, os simpatizantes de Plínio Sampaio e Maria do Rosário somaram 33% dos votos. Raul Pont ficou com 13% e Pomar com apenas 1%. Nos outros Estados, o desempenho dos aliados de Pont foi fraco. A tendência do candidato apóia aliados locais que irão disputar o segundo turno contra o Campo Majoritário no Maranhão e em Minas Gerais. Corre o risco de terminar o processo de eleição direta sem ter em sua 'bancada' um único presidente de diretório estadual. Já a Articulação de Esquerda de Valter Pomar ganhou em Santa Catarina e no Espírito Santo e disputa o segundo turno contra o Campo Majoritário em Sergipe e na Bahia. Será decisiva a posição do Movimento PT, tendência moderada representada nas eleições por Maria do Rosário, que venceu no Mato Grosso e está presente no segundo turno na Paraíba e no Rio de Janeiro, enfrentando o Campo Majoritário. Integrantes da corrente mostraram que a tendência poderá apoiar qualquer um dos que participarem da rodada definitiva. O segundo turno petista dificilmente será um plebiscito interno sobre a relação entre o PT e o governo Lula. Na avaliação do atual presidente da sigla, o ex-ministro da Educação Tarso Genro, nem Berzoini é um aliado incondicional da política econômica do governo federal, nem Pomar ou Pont são favoráveis a uma ruptura com o Planalto. Além disso, o formato do novo Diretório Nacional já foi decidido na votação das chapas -que é independente da escolha do presidente- e que apontou o Campo Majoritário com apenas 42,2% do total, com nenhuma outra tendência chegando sequer a 15%. A divisão de vagas no Diretório será proporcional. Como nenhuma das chapas terá maioria numérica na composição do diretório e da executiva, as decisões políticas do partido terão de ser todas negociadas, ressaltou Tarso Genro. A campanha para o segundo turno deverá demorar a começar, até que o partido decida sobre os recursos de impugnação por irregularidades. Como a diferença de votos entre Pomar e Pont é mínima, a retirada de qualquer cidade de mediana importância dentro do colégio eleitoral da sigla pode mudar o resultado nacional. Pedidos de impugnação se multiplicam nos Estados. No Rio foram protocolados na comissão eleitoral do partido no Estado dois pedidos de impugnação: em Duque de Caxias, com 765 votos válidos, a pedido de apoiadores de Plínio Sampaio, outro em Nova Iguaçu, com 720 votos, protocolado por uma das chapas derrotadas na disputa pela presidência do diretório estadual. (Colaboraram Patrick Cruz, de Salvador, Thiago Vitale Jayme, de Brasília, Francisco Góes, do Rio, Vanessa Jurgenfeld, de Florianópólis e Marli Prado, de Curitiba)