Título: Volatilidade marca frutas e hortaliças
Autor: Cibelle Bouças
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Especial, p. A12

Emílio Kenji Okamura, produtor em Capão Bonito (SP), precisa vender 9 quilos de batata no mercado atacadista para comprar dois quilos do produto no supermercado perto de sua casa. "O preço pelo menos dobra até chegar ao varejo e isso mata o consumidor. Fico revoltado", afirma. Okamura viu a diferença de preços da batata do campo ao varejo aumentar nos últimos cinco anos, mas sua "revolta" é comum mesmo entre produtores de culturas com duas ou mais safras por ano (conhecidas como de ciclo curto) cuja diferença caiu desde 2000. No setor de alimentos, frutas e hortaliças são os que mais oscilam de preço ao longo das cadeias - e os que apresentam maiores variações durante o ano. A irregularidade das safras levou Okamura a receber R$ 15 por saca de 50 quilos de batata na colheita de agosto passado, 32% menos que a média do mesmo mês de 2004. Segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA) - ligado à Secretaria de Agricultura de São Paulo - compilados pelo Valor, a cotação média da batata no varejo estadual é até 80% superior à média do atacado. Em 2000, a diferença era de 44%. Para o tomate a diferença caiu na mesma comparação (de 173% para 107%), mas Marcos Ravagnani, produtor em cidades paulistas e mineiras, credita o movimento à saída de atravessadores desta cadeia produtiva. "As grandes redes varejistas fazem leilão. Escolhem pelo preço mais baixo e os produtores que não se reúnem para ter mais peso de negociação acabam tendo que ceder à pressão desses gigantes", observa o agricultor. Marcelo Lüders, analista da paranaense Correpar, confirma que pressão semelhante acontece no mercado de feijão. Segundo ele, os supermercados operam com margem de pelo menos 25% sobre o preço ao produtor. Há cinco anos, essa média não chegava a 5%. "Hoje não tem quem ganhe mais na cadeia do feijão do que os supermercados". O produtor Márcio de Oliveira, que planta 130 hectares de feijão em Tatuí (SP), observa que neste caso a figura do atravessador - popular até a década de 90 - também praticamente desapareceu, encurtando as diferenças de preço. "Alguns produtores preferem negociar diretamente os supermercados e isso começou a afetar as empacotadoras". Sussumu Honda, presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), lembra que as redes têm feito parcerias com produtores para garantir a compra de alimentos a custo mais baixo o ano todo. "O consumidor memoriza os preços de produtos da cesta básica. Por isso, as redes procuram manter os preços desse itens relativamente estáveis para atrair clientes". Honda também aponta o desperdício como fator de encarecimento. Nos supermercados, o índice de desperdício de frutas e hortaliças varia de 4% a 5%. Na estatal Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), o índice é de 0,8% (80 toneladas por dia). Outro problema, segundo Honda, são os fretes. Cálculos de Alaíde Gonçalves, gerente de compras da rede varejista capixaba Hortifruti, mostram que os custos com transporte produzem grande efeito na determinação de margens do varejo. "O gasto com transporte chega a 32% do preço final dos alimentos". José de Paula Teixeira, bananicultor e presidente do Sindicato Rural do Vale do Ribeira, faz coro contra a grande diferença de preços entre o campo e as gôndolas e também contra a volatilidade do mercado, que também tem como característica a produção regionalizada e o progressivo aumento da oferta. Conforme o IBGE, esta alta foi de 7% de cinco anos para cá, para 6,8 milhões de toneladas de banana. No caso da batata, o aumento na mesma comparação foi de 9%, para 3,05 milhões de toneladas; no do tomate, de 9,3%, para 3,71 milhões de toneladas. "Por serem produtos com demanda estável, a oferta é o principal fator determinante para a formação de preços ao longo do tempo", diz Paulo Pichetti, coordenador da pesquisa de preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP). (CB)