Título: Produção crescente ajuda a 'segurar' carne, leite e arroz
Autor: Cibelle Bouças
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Especial, p. A12
Demanda estável, concentração do varejo e dificuldade de exportar todo o excedente de produção têm sido os principais fatores responsáveis pela redução das diferenças entre preços na fazenda e no varejo praticados nas cadeias produtivas de carne bovina, leite e arroz. Fabio Silveira, sócio da MSConsult, observa que essas áreas, que não têm grandes oscilações de oferta ao longo do ano, estão mais suscetíveis às variações da demanda nos mercados interno ou externo. E quando se trata de produtos sem tradição de exportação, como leite e arroz, a demanda doméstica determina a formação de preços. Dárcio del Fraro, diretor da Cooperativa Agropecuária do Sudoeste Mineiro (Casmil), lembra que, no caso do leite, os preços eram tabelados pelo governo até a década de 80. As cotações no varejo tinham que se manter de 66% a 150% mais altas que no campo. "Com a liberação do mercado, o varejo passou a exercer o preço de acordo com a demanda", diz. Hoje, na média, o preço sobe 145% da fazenda às gôndolas, conforme cálculos realizados pelo Valor. Em 2000, a alta chegava a 166%. Manoel Soares Camargo, produtor de leite em Mococa (SP), também observa que o consumo cresceu menos que a produção, o que ajudou a pressionar as margens de lucro. Segundo a Scot Consultoria, os preços do leite no atacado são 121% mais altos que no campo, mas em 2003 (início do estudo) eram 160%. Maurício Nogueira, analista da Scot, diz que a alta se deve principalmente ao custo da embalagem UHT (longa vida), que chega a corresponder a um terço do preço final do leite. Já a margem do varejo sobre o atacado fica em 18%, ante 15% há três anos. Já no caso da carne bovina, a diferença de preços do varejo em relação ao atacado subiu de 40% para 60% nos últimos dez anos, segundo a Scot. Para o analista Fabiano Tito Rosa, esse aumento decorre da concentração da demanda nas grandes redes de supermercados. "Os açougues estão sendo expulsos do mercado. Está se formando um oligopsônio, onde poucas redes têm poder para definir os preços", diz. Segundo a Associação Paulista de Supermercados (Apas), as grandes redes já representam mais de 50% da venda de carne no país. Segundo Sussumu Honda, presidente da entidade, a carne está entre os produtos com maior rentabilidade no varejo. Situação semelhante acontece em outro elo da cadeia. Os frigoríficos tiveram aumento nas margens sobre o preço ao produtor de 14% para 20% nos últimos cinco anos. José Vicente Ferraz, do Instituto FNP, diz que a produção pecuária cresceu mais que a capacidade de processamento dos frigoríficos. E estes, como são em número menor que o de produtores, têm força para pressionar. Antenor Nogueira, presidente do Fórum Nacional Permanente da Pecuária de Corte da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), diz que os pecuaristas também aumentaram o uso de tecnologias no campo e reduziram a idade de abate dos animais, o que gerou aumento de oferta no período. Já no caso do arroz, foi o aumento da concorrência causado pela abertura de novas indústrias beneficiadoras que provocou redução nas margens das indústrias, segundo Aldo Lobo, analista da Safras & Mercado. Em São Paulo, a diferença entre os preços pagos ao produtor e os praticados pelas indústrias caiu de 64% para 53% nos últimos cinco anos, segundo dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA), da Secretaria de Agricultura do Estado. "A mudança no perfil de consumo também produziu efeito na demanda", observa Lobo. Segundo a Conab, enquanto a produção de arroz cresceu 27% nos últimos cinco anos, para 13,2 milhões de toneladas na safra 2004/05, o consumo subiu 8%, para 12,9 milhões de toneladas anuais. "O excesso de oferta interna e o dólar baixo facilitando a entrada de arroz da Argentina também ajudaram a pressionar as margens", diz Walmar Cardoso Júnior, produtor em Palmares do Sul (RS). Para o varejo, o excesso de oferta e o grande número de beneficiadoras ajudaram a engordar as margens de 22% para 32% nos últimos cinco anos. (CB)