Título: Cai diferença de preço entre campo e varejo
Autor: Cibelle Bouças
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Especial, p. A12
Inflação Margem de intermediação recuou de agosto de 2000 para o mesmo mês de 2005, mas ainda atinge 150%
Caiu a diferença entre as cotações pagas aos produtores agropecuários e os preços verificados nas prateleiras dos supermercados do país. Apesar da queda, os preços de arroz, feijão, carne bovina, tomate, batata, banana e leite, os alimentos mais comuns na mesa do brasileiro - e por isso com maior influência sobre a inflação - ainda sobem, em média, mais de 150% da fazenda às gôndolas, por conta principalmente de custos logísticos, carga tributária, desperdícios e disputas por margens de lucro. Em agosto de 2000, o aumento médio superava 170%. O cálculo realizado pelo Valor refere-se ao mercado paulista e foi feito a partir do cruzamento de dados do governo do Estado, Ceagesp e Procon. Mas especialistas afirmam que a tendência é nacional. Não há uma razão única capaz de explicar a redução, mas demanda doméstica reprimida, ganhos de produtividade e saída de intermediários em algumas cadeias tiveram influência. E há sinais concretos de que tanto no campo quanto no varejo as margens de lucro registraram aumento. Dos produtos analisados, a batata é o com maior margem de intermediação ao longo da cadeia atualmente (307%) e o único cuja diferença do campo às prateleiras aumentou na comparação com 2000 (232 pontos percentuais). O feijão é hoje o que aumenta menos até a mesa (90%) e aquele que registrou a menor redução da diferença em relação a 2000 (12 pontos). O arroz é o que registra a maior redução dessa diferença nos últimos cinco anos (143 pontos), conforme mostra a tabela. Paulo Pichetti, coordenador da pesquisa de preços da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe/USP), observa que os crescimentos do nível de ocupação e do rendimento médio das famílias nos últimos cinco anos não acompanharam a expansão da produção agrícola e de alimentos, e que este fator foi fundamental para a tendência identificada. "No longo prazo, a demanda cresceu menos que a oferta, o que dificultou o repasse de preços ao longo das cadeias e levou o grupo alimentos a segurar as altas da inflação, funcionando como âncora", afirma. Segundo o histórico do Índice de Preços ao Consumidor (IPC-Fipe), entre janeiro de 2000 e agosto de 2005 o grupo alimentos teve alta de 38,35%, enquanto o índice geral no período subiu 45,67%. Nos 12 meses até agosto passado, o feijão subiu 54,91% e foi o único a superar o IPC/Fipe do intervalo (4,95%). Já as baixas do arroz (24,15%), carne bovina (2,07%), batata (30,69%), tomate (40,47%), banana (1,97%) e leite (13,3%) ajudaram a conter o indicador da Fipe. "São produtos que oscilam mês a mês por conta dos ciclos de safra, mas no longo prazo a oferta crescente tem determinado deflação no varejo", sustenta Pichetti. Cada cadeia produtiva, entretanto, passou por mudanças específicas que também pesaram para a queda da diferença do campo ao varejo entre 2000 e 2005. Mas há outro ponto em comum: os preços pagos ao produtor no período analisado subiram mais que a média da inflação medida no varejo, o que ajuda a explicar a redução da diferença. Como nesta equação fatores como custos de insumos (que subiram no último ano) são vitais, nem sempre melhor preço resulta em melhores margens. Na comparação entre 2000 e 2005, contudo, a premissa é comprovada por dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA) - vinculado à Secretaria de Agricultura de São Paulo. O preço médio pago aos produtores de arroz, por exemplo, saltou 100% no período, quando no varejo a alta foi de 42,34%. No caso da carne bovina, houve alta de 20% no campo, ante 16,38% no varejo. O tomate subiu 109% no campo e caiu 40,47% no fim da cadeia. A banana subiu 47% na fazenda e 31,22% no varejo. No leite, houve alta de 45% na fazenda, contra 43,26% no varejo. "O aumento de preços e a apropriação de margens por agentes da cadeia produtiva são próprios de uma economia que está crescendo", avalia Fabio Silveira, sócio da consultoria MSConsult. Segundo ele, houve leve alta na renda mensal e na capacidade de compra dos consumidores e isso foi percebido pelos supermercados, que também elevaram suas margens - embora, na média, os preços do varejo tenham subido menos que a média da inflação. No caso da carne bovina, a margem foi de 49% a 56%. A margem sobre o arroz subiu de 22% para 32% e, no caso da batata, passou de 44% para 80%. Sussumu Honda, presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), diz que boa parte da valorização de preços no varejo tem por objetivo cobrir despesas logísticas e com carga tributária, e reconhece que as redes pressionam atacadistas, indústrias e produtores para obter alimentos a custos mais baixos. "Os produtos de cesta básica transmitem a imagem de bons preços. É o que atrai o consumidor ao supermercado". A tendência, diz o executivo, é que a pressão continue.