Título: Tesouro quer atrair estrangeiros
Autor: Tatiana Bautzer
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Finanças, p. C1
Dívida Idéia é desburocratizar mercado para vender títulos domésticos a investidores externos
O secretário do Tesouro Nacional, Joaquim Levy, está discutindo com o mercado a desburocratização dos investimentos estrangeiros em dívida doméstica. Levy diz que a emissão externa em reais atraiu investidores que nunca haviam "experimentado" o risco-Brasil, e funcionará como chamariz para o mercado de títulos públicos. "O resultado da emissão externa em reais foi bom porque separou o risco-país real das pequenas dificuldades burocráticas que os estrangeiros enfrentam para investir no Brasil", disse o secretário durante um seminário paralelo à reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird). O Tesouro pagou 12,75% numa emissão de US$ 1,5 bilhão, indexada ao real, por dez anos. No pool de investidores há várias instituições que não são tradicionais compradoras de papéis brasileiros. O Tesouro e setor privado estão discutindo medidas como harmonização de prazos para liquidação de operações com títulos públicos e câmbio. O sistema de negociação da BM&F (Sisbex) está sendo preparado para permitir a negociação eletrônica, por meio da plataforma de cotações da bolsa e da Reuters. "Hoje não é fácil investir no Brasil, a data de liquidação de contratos no mercado secundário não bate com a de câmbio, há uma diferença de dois dias nos quais o investidor fica com o dinheiro parado", disse Levy ao Valor. O secretário quer simplificar as regras para facilitar o entendimento pelo investidor estrangeiro. O Brasil também pretende optar pela manutenção de toda estrutura de "clearing" no país. No caso do México, houve a terceirização da liquidação para clearings no exterior, mesmo nos casos em que a venda de títulos é liquidada em pesos. Levy acredita que a emissão de títulos de dez anos denominados reais no exterior ajude a formar uma curva de juros para emissões parecidas de empresas brasileiras. O secretário preferiu não comentar a possibilidade de novas emissões no exterior em reais. Num outro seminário durante a manhã, o diretor da agência de classificação de risco de crédito Standard & Poor's, John Chambers, disse que a cobrança de CPMF e outros impostos dificulta o investimento de estrangeiros no mercado de dívida local brasileiro. O secretário, entretanto, diz que o governo não vai usar a via tributária para incentivar os estrangeiros. Os bônus internacionais denominados em moeda local de países emergentes tornaram-se uma febre e já expandiram-se para emissores sem relação com o país onde a moeda circula. O subsecretário de Finanças do México, Alonso Tamés, disse durante o mesmo seminário do qual Levy participou que "não consegue imaginar por que o governo da Áustria está emitindo bônus em pesos mexicanos". O mesmo está ocorrendo com a moeda brasileira. O diretor do Tesouro da Turquia, Coskun Cangoz, diz que mais de US$ 4,5 bilhões foram emitidos em liras turcas só este ano, e que há um impressionante aumento da base de investidores nessas emissões. "É uma boa alternativa, mas temo que durante uma crise isso gere alguma dor de cabeça", diz Cangoz.