Título: Inflação abaixo do centro da meta abriu o espaço para corte da Selic
Autor: Mônica Izaguirre
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Finanças, p. C2
A taxa básica de juro (Selic) atingiu um patamar tão alto, ao chegar a 19,75% ao ano em maio deste ano, que derrubaria a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a um nível abaixo da meta fixada para 2005. O fato de o IPCA ficar desnecessariamente abaixo dos 5,1% pretendidos para este ano foi o fator que levou o Comitê de Política Monetária (Copom) a retomar o processo de redução da Selic, fazendo um corte tímido de 0,25 ponto percentual no dia 14 passado, conforme foi admitido na ata da última reunião do Copom, divulgada ontem pelo Banco Central. A manutenção da Selic em 19,75% ao ano faria com que o IPCA evoluísse em ritmo inferior à meta também em 2006 (4,5%) e nos períodos de 12 meses terminados em março, junho e setembro do próximo ano. Os cálculos do BC tomaram como pressuposto uma taxa de câmbio constante em R$ 2,35, nível da véspera da reunião. A ata não especificou, porém, que percentuais de inflação projetada foram encontrados abaixo da meta. A melhora das projeções inflacionárias, que permitiu a primeira flexibilização da política monetária em 17 meses, deveu-se fundamentalmente a três fatores, segundo a ata. O primeiro foi a "surpresa positiva" do IPCA de agosto. A variação do índice no mês ficou em 0,17%, confirmando a "continuidade do processo de acomodação da inflação em níveis inferiores aos verificados nos meses iniciais de 2005". Também ajudou o "alargamento do hiato do produto", afirma a ata, referindo-se a um maior distanciamento entre o Produto Interno Bruto efetivo e o PIB potencial, que o país teria condições de gerar sem pressionar a inflação. Ao dessazonalizar dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o BC concluiu que a utilização da capacidade instalada (UCI) da indústria de transformação voltou a cair em julho, atingindo 81,8%, ante 82,7% em junho. Também dessazonalizados pelo BC, os dados da Fundação Getúlio Vargas mostraram aumento desse indicador, porém "marginal", avalia o Copom, vendo "relativa estabilidade" da UCI. Considerando que a produção industrial aumentou, a estabilidade relativa do indicador "parece estar associada à maturação de investimentos". O terceiro fator de melhora das projeções de inflação, segundo a ata, foi a "reavaliação das estimativas de alguns preços administrados para o restante do ano". Isso contrabalançou os efeitos adversos do aumento do preço da gasolina. Por causa aumento anunciado no início de setembro pela Petrobras, a projeção de reajuste acumulado da gasolina em 2005 subiu de zero para 7,5%, em relação à reunião anterior do Copom. O reajuste projetado para as tarifas de telefonia fixa também subiu, de 6,1% para 6,7%. Por outro lado, a projeção relativa ao aumento acumulado das tarifas de energia elétrica residencial caiu de 8,2% para 7,6% . Outra que desceu foi a variação projetada para o preço do gás de botijão, que saiu de zero para 1,7% negativo. Ainda assim, o aumento esperado para os preços administrados e monitorados como um todo em 2005 passou de 7% para 7,8% . Mas para 2006 a projeção para o mesmo conjunto de preços caiu de 5,7% para 5,3%. Sinalizando a possibilidade de novas reduções da Selic, a ata afirma ainda que o espaço para queda dos juros "continuará se consolidando de forma natural", com a melhora progressiva da percepção de risco, esperada em função da convergência da inflação para as metas e da consolidação do cenário de estabilidade macroeconômica.