Título: Cautela ainda excessiva inquieta economistas
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 23/09/2005, Finanças, p. C2
O mercado financeiro recebeu a ata com um misto de surpresa e inquietação. Surpresa porque o documento foi escrito em um tom geral otimista e francamente auto-elogioso. A apreensão decorre da falta de sinalização precisa sobre o tamanho do próximo corte da Selic. Está claro que o juro básico irá cair na próxima reunião do Copom, marcada para 19 de outubro. Mas a baixa pode ser tanto de 0,25 ponto quanto de 0,50 ponto. Há elementos tranquilizadores, como a referência ao "alargamento do hiato do produto" - o hiato está alargado quando a capacidade de oferta da economia supera a demanda agregada, e se mostra apertado se a procura torna-se potencialmente inflacionária, exigindo uma resposta ativa da política monetária, ou seja, choque de juros -, mas o parágrafo 19 é abertamente conservador. Só ele já será capaz de amparar uma decisão ortodoxa de recuo da Selic em 0,25 ponto no mês que vem. O parágrafo 19 foi intensamente comentado pelas mesas. Sua tradução livre: como a economia continua crescendo e como as deflações atuais são meramente pontuais, o BC está tentado a manter o conservadorismo (corte de 0,25 ponto em outubro) para acertar em cheio a meta de inflação para 2005, de 5,1%. Ou seja, o BC não acha que a meta já tenha sido cumprida. Grande destaque foi dada ontem pelos meios eletrônicos de comunicação ao cenário de referência do BC para o IPCA, como sendo indício de que o Copom pode ter reconhecido que foi excessivamente rigoroso em seu aperto monetário já que, pelas projeções do cenário, as taxas de inflação para 2005 e 2006 já estão abaixo das metas de 5,1% e de 4,5%, respectivamente. Não tem nenhum mea-culpa aí. O cenário de referência é basicamente técnico e náo diz muita coisa. Por ele, se a Selic permanecesse em 19,75% (taxa de agosto, anterior à definida pelo Copom na reunião da semana passada) até o final de 2006, ou seja, ficasse congelada em 19,75% por mais 16 meses, e se o câmbio ficasse em R$ 2,35, nesse caso o IPCA de 2005 seria menor que a meta ajustada de 5,1% e o de 2006 abaixo do alvo de 4,5%. Ou seja, se o BC fosse louco de estender o violentíssimo aperto monetário por mais 16 meses a inflação seria menor que a meta. Isso é óbvio, e não precisaria ser dito. O economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, diz em relatório distribuído ontem à tarde a clientes que a cautela demonstrada pelo Copom na ata não significa necessariamente que irá baixar o juro em apenas 0,25 ponto. "A cautela do BC decorre muito mais de uma crença de que pode obter maiores ganhos com relação à inflação, sem prejudicar além do desejável a atividade, do que de uma preocupação com a aceleração da inflação" , diz Barros. Mesmo depois da ata, o Bradesco sustenta sua previsão de três quedas de 0,50 ponto até o final do ano, com a Selic encerrando 2005 a 18%. "Redução de 0,5 ponto não coloca em risco a inflação de curto prazo, a continuidade da queda das expectativas de inflação e muito menos as projeções do BC. Também não implica risco de que ocorra uma rápida aceleração da demanda interna", diz o banco.