Título: Doleiro detalha esquema financeiro de Valério
Autor: Daniel Rittner e Thiago Vitale Jayme
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Política, p. A6

Crise Em sessão reservada, Toninho da Barcelona, diz que PP recebeu R$ 8 milhões para colaborar com o governo

O doleiro Antônio Claramunt disse ontem às CPIs dos Bingos, dos Correios e do Mensalão que o PP recebeu R$ 8 milhões do esquema montado pelo PT e pelo empresário Marcos Valério de Souza para colaborar com o governo depois da eleição do presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti (PP-PE). A revelação foi feita na última parte do depoimento de Toninho da Barcelona, como é conhecido, quando ele falou a deputados e senadores em sessão reservada. Parte do dinheiro teria como beneficiários o próprio parlamentar pernambucano e o líder do PP, deputado José Janene (PT-PR). Do dinheiro ao partido de Severino, R$ 5 milhões teriam saído da corretora Bônus-Banval, usada para repasses do valerioduto a parlamentares da base aliada. O restante do dinheiro teria sido conseguido por Dário Messer, classificado por Toninho da Barcelona como "o maior doleiro do PT". As informações foram passadas ao doleiro pelo também doleiro Najun Turner, colega de cela de Barcelona por vários meses na penitenciária de Avaré (SP), onde está detido desde agosto de 2004 por crimes contra o sistema financeiro. Turner era parceiro de Messer e diversas operações, inclusive nesta para abastecer Severino e o PP. Dos R$ 8 milhões do PP, segundo Barcelona, R$ 1,5 milhão teriam ido para Janene. A informação teria sido obtida pelo doleiro com o amigo e doleiro paranaense Alberto Youssef, também próximo do deputado do PP. Uma parte significativa teria sido repassada a Severino, na versão de Barcelona. O líder do partido negou as acusações. Ele entrou na sessão reservada depois do vazamento da história e saiu 30 minutos depois. "Eu mesmo perguntei a ele sobre as acusações e ele negou tudo", disse Janene. A história contada por Barcelona foi confirmada aos jornalistas por pelo menos oito parlamentares que participaram da sessão. Na reunião fechada, Barcelona também disse ter operado para o PT de Santo André, onde o ex-prefeito da cidade Celso Daniel foi assassinado supostamente por conta do esquema de corrupção no município. Aos parlamentares, o doleiro disse que recebia notas de baixo valor nas empresas de transporte urbano da cidade e o repassava para a conta Barnet do banco Merchants Bank, com sede nos Estados Unidos. Antes de a sessão ser fechada para Barcelona fazer tais revelações, o doleiro falou por quatro horas. Ele traçou o caminho das operações financeiras que alimentaram o caixa 2 do PT nas eleições de 2002 e o esquema montado pelo partido em conjunto com o empresário Marcos Valério de Souza. Ele disse que os empréstimos tomados por Valério juntos aos bancos Rural e BMG eram lastreados por contas no exterior. Os empréstimos nunca seriam pagos, pois a garantia aos repasses das duas instituições financeiras eram os saldos das contas do empresário fora do país. Segundo o doleiro, o esquema passava pelo Trade Link Bank, offshore "que era um braço do Rural no exterior". Barcelona desenhou o mapa das transferências: Valério ordenava uma operação de câmbio ao Trade Link, que entrava em contato com um diretor do Rural em Montevidéu. Concluída a operação, os recursos em reais eram colocados à disposição da Bônus-Banval, freqüentemente por meio de doleiros. "Me chegou a informação de Marcos Valério tem conta no Rural em dólares que serve de swap", afirmou o depoente. Ele disse que a relação da Bônus-Banval com o PT tem origem no doleiro Alberto Youssef, de Foz do Iguaçu, prestador de serviços antigo de Janene. Youssef o apresentou à corretora, que agradou ao parlamentar. Janene teria apresentado a Bônus-Banval a Marcos Valério. O empresário, por sua vez, fez a ligação da corretora com o e tesoureiro petista Delúbio Soares. Teve início uma relação próxima entre a cúpula do PT e a Bônus-Banval, cujo sócio, Enivaldo Quadrado, tornou-se amigo do ex-ministro da Casa Civil e deputado José Dirceu (PT-SP), na versão de Barcelona. "Isso era voz corrente no mercado", relatou. Toninho da Barcelona revelou uma demanda fora do comum durante as vésperas das eleições de 2002. "Havia uma procura por dinheiro vivo bastante intensa e o mercado não conseguia atender", afirmou. O doleiro revelou um trabalho feito por ele mesmo à Bônus-Banval para repassar dinheiro ao PT. "Fiz uma operação que rendeu R$ 7 milhões e repassei o dinheiro à Bônus-Banval. O montante tinha como destinatária a campanha do PT" Em nota, a corretora qualificou como "mentirosas" as declarações do doleiro e ressaltou que ele não apresentou "qualquer evidência" para comprovar as denúncias. Quadrado tem dito que não conhece Barcelona. O doleiro levou à CPI extratos telefônicos dos meses de março e abril de 2003 para comprovar ligações entre os dois e revelou o planejamento de Quadrado em abrir um departamento de câmbio em Brasília. "Ele queria atender aos clientes políticos vislumbrando as campanhas dos próximos anos", disse. O doleiro revelou também uma triangulação entre a Bônus, o doleiro Messer e a Guaranhuns, empresa que teria repassado R$ 10 milhões ao PL entre 2002 e 2003. Barcelona, acrescentando que o mesmo funcionário da sua agência levava os dólares para Devanir, na época vereador em São Paulo. O doleiro sugeriu a reabertura das investigações realizadas pela CPI do Banestado e afirmou que a análise de contas do MTB Bank, em Nova York, pode levar a provas de lavagem de dinheiro e do pagamento de parlamentares envolvidos no esquema de Marcos Valério. No início da sessão, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) disse que processaria o doleiro se ele mantivesse declarações de que operou para ele em 2002. Ao próprio deputado, o doleiro garantiu ter feito várias operações de câmbio. O doleiro apresentou uma lista de seis vendas de dólares a Devanir, entre julho e setembro de 2002, totalizando US$ 128,5 mil. "Foi solicitada a entrega no seu gabinete", disse.