Título: Dantas depõe à CPI sem obrigação de dar respostas
Autor: Heloisa Magalhães, Talita Moreira e Juliano Basile
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Política, p. A7

O presidente do grupo Opportunity, Daniel Dantas, alinhavou cautelosamente, nas últimas semanas, a estratégia que adotará em seu depoimento à CPI dos Correios, marcado para hoje. E, segundo assessores, dificilmente o banqueiro partirá para a agressão ou apresentará denúncias envolvendo o governo. Por outro lado, dificilmente serão poupados os dirigentes dos fundos de pensão e o secretário do Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Luiz Gushiken - aqueles que Dantas interpreta como principais adversários no litígio que se arrasta há mais de quatro anos pelo controle da Brasil Telecom (BrT). Ontem, Dantas obteve um salvo-conduto no Supremo Tribunal Federal (STF) garantindo o direito de não responder a perguntas que possam levar à auto-incriminação no depoimento. O ministro Gilmar Mendes concluiu que o banqueiro deporá na condição de investigado, e não como testemunha. O instrumento também foi usado pelo ex-secretário-geral do PT Sílvio Pereira e pelo ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz. Dantas foi chamado a explicar repasses de R$ 145,6 milhões feitos por empresas administradas pelo Opportunity - Telemig Celular e Tele Norte Celular e BrT - a agências de publicidade que têm como sócio Marcos Valério de Souza. O banqueiro é extremamente agressivo nos negócios, mas polido e envolvente no trato pessoal - e deverá lançar mão dessas características no depoimento. Segundo assessores, ele dirá na CPI que 70% dos recursos transferidos às agências de Valério destinaram-se ao pagamento da mídia; 20%, às produtoras; e, o restante, à agência. Dantas deverá afirmar que esteve uma vez com o publicitário. As duas últimas semanas foram marcadas por uma intensa movimentação de Dantas e de seus desafetos, todos se preparando para a CPI. O banqueiro esteve em Brasília fazendo contatos com jornalistas e parlamentares, de forma discreta, como é de seu feitio. Dantas teria passado algumas dezenas de horas treinando as respostas e azeitando a estratégia. Os rivais do empresário também marcaram posição. Um histórico dos escândalos envolvendo Dantas teria sido enviado por representantes dos fundos de pensão a parlamentares, com o objetivo de evitar que as idas e vindas da disputa "confundam" os deputados e os senadores. O empresário Luís Demarco, ex-sócio e arqui-rival de Dantas, também teria municiado parlamentares com uma série de questões para ser feitas ao empresário. Ele não foi localizado para confirmar a informação. O depoimento é a primeira de duas importantes batalhas que Dantas terá de travar até a próxima semana. Está marcada para o dia 30 uma assembléia de acionistas da BrT, na qual o Citigroup e os fundos de pensão planejam destituir o Opportunity e assumir o comando da operadora. Nos últimos dias, têm circulado rumores de que a Telecom Italia - também acionista da BrT - voltou a procurar o Citi e os fundos para adquirir a fatia deles na operadora antes da assembléia. Os italianos já têm acordo para comprar as ações do Opportunity na BrT. Alguns interlocutores ligados aos acionistas confirmam e outros refutam a retomada das negociações. Para aqueles que desmentem a informação, os rumores podem ajudar Dantas na CPI porque poderiam dar a sensação de que depende dos fundos encerrar o conflito. O Citi e as fundações pretendem vender juntos as participações na BrT e na Telemar até 2007. Se isso não ocorrer, os fundos se obrigam a comprar as ações do banco americano.