Título: O momento especial do PMDB
Autor: Rosângela Bittar
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Política, p. A8
Rápido inventário, sem aprofundar investigações sobre a importância de cargos de escalões inferiores e orçamentos das suas prefeituras municipais, mostra um PMDB, neste momento, bastante denso politicamente, com todos os instrumentos para levar adiante o projeto de ter candidatura própria à sucessão presidencial de 2006, se realmente quiser. Seus governadores estão ativos e bem situados, conta com ministros em pastas significativas do ponto de vista orçamentário e eleitoral no governo Lula, está na presidência do Senado, conquista nomes de peso nas mudanças partidárias deste setembro. O vice-presidente, José Alencar, já conversou com o partido e manifestou desejo de para lá se transferir; muitos, que não querem deixar o governo mas estão se afastando das legendas mais comprometidas com os escândalos, também têm procurado o PMDB. Com apenas um deputado - o ex-líder José Borba - na lista de cassáveis por terem recebido dinheiro do esquema de doações do PT por intermédio do lobista Marcos Valério, o PMDB conseguiu a proeza de manter uma certa impermeabilidade à crise, mesmo estando no governo. O partido não se esfacelou, como os demais aliados, além de ter se transformado em opção para quem quer fugir do incêndio mantendo algum vínculo com a casa paterna. Sobreveio a tudo isso uma extemporânea sucessão à presidência da Câmara, e eis que o candidato melhor situado para se tornar a opção de consenso é o deputado Michel Temer, do PMDB. Por acaso o presidente do partido. Até as divisões do PMDB, históricas, deixaram de ser um defeito insuperável neste momento de rachas partidários violentos, como ocorre no PT, ou sutis, como no PSDB. E tem conseguido, meio a este nebuloso quadro, manter-se ao lado de Lula, alimentando ao mesmo tempo os planos de apresentar candidatura própria à sucessão do presidente. Sem dúvida, o PMDB pode exibir o título de legenda que a conjuntura política colocou em melhor situação entre os partidos governistas. Sim, porque se metade do partido está na oposição, o que lhe permite lavar as mãos quanto ao mal feito, sua face governista tem se salvado de todas, mesmo que amplie a cada dia o abraço ao governo e seus cargos. O experiente deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), um dos melhores analistas deste partido que poucas vezes se viu em situação tão confortável como a do momento, avalia que o PMDB está bem até mesmo para a sucessão presidencial. Ao contrário de muitos, Barbalho não descarta a possibilidade de sucesso, ainda, do presidente Lula e do PT nas eleições de 2006. Diz que Lula não está descartado, muito menos que o peso do PT não vá existir nas eleições do ano que vem. A seu ver, o PT está apenas aturdido, mas não acabou o petista nem o eleitorado do PT. "Na eventualidade de Lula não sair candidato ou não ir ao segundo turno, o eleitorado petista, por gravidade, vai para o PMDB, se o partido estiver no segundo turno. Da mesma forma, se Lula for para o segundo turno com um candidato do PMDB, inevitavelmente o voto anti-petista irá para o candidato do PMDB".
Três candidaturas são para valer
Os pemedebistas do governo e da oposição, independentemente da opção final para 2006, estão fazendo questão de manter de pé o projeto da candidatura própria. E têm trabalhado com objetividade, aproveitando este bom momento atual, em torno de uma consolidação desta idéia. Todas as candidaturas são, em princípio, para valer. O ex-governador Orestes Quércia teve, há poucos dias, um encontro com o governador de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos, e o partido passou a considerar seu nome, desde então, como um dos favoritos na disputa das prévias. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, está no elenco de protagonistas do PMDB e à espera de que sua candidatura ganhe corpo. No cargo em que está seria imprudência agir com espalhafato, mas o PMDB vem acompanhando de perto todos os seus movimentos. Havia expectativa sobre a saída de Anthony Garotinho da legenda, mas ele já declarou que fica no PMDB e está convocando uma reunião para o dia 23, quando pretende discutir as prévias com o partido. Entre todas, só não há consistência na candidatura de Germano Rigotto, governador do Rio Grande do Sul. Sua movimentação está mais atrelada à fuga de um questionamento sobre a reeleição, tarefa que, no momento, se lhe apresenta muito difícil, do que a um projeto que mantenha vínculos mínimos com a realidade. A Defesa e a cota O vice-presidente José Alencar resolveu mesmo fazer uma mudança geral de vida. Ao mandato de vice não vai renunciar, mas já saiu do PL, que, ao lado do PT e do PP, foi um dos partidos mais envolvidos no escândalo de corrupção em cartaz. Comunicou também ao presidente Lula que quer deixar o Ministério da Defesa. Alencar, só na vice-presidência, posto que conquistou por mandato popular, preserva-se mais se não tiver outros vínculos e compromissos com o governo como um todo. Foi o próprio presidente Lula quem tomou a iniciativa de comunicar a alguns líderes aliados que Alencar pediu para sair do Ministério. Ainda está sem partido, Alencar teve uma conversa com o presidente do PMDB, Michel Temer, legenda a que já foi filiado e a que pode voltar. Previdente, o PMDB tomou o primeiro lugar na fila dos candidatos a ficar com o cargo de ministro da Defesa se o presidente Lula aceitar o pedido de demissão do vice. Mergulho e emersão Cotado para ser um dos primeiros a sair àquela época, o ministro da Pesca, José Fritsch, foi tragado pelas circunstâncias, há dois meses, quando o presidente promoveu o que seria uma das últimas etapas da reforma ministerial para enfrentar a crise e chegar ao fim do seu primeiro mandato. Fritsch escapou da degola, mas mergulhou fundo, desaparecendo do mapa governamental. Reapareceu ontem, no início da tarde, para uma visita ao Mercado do Peixe de Niterói, no Rio de Janeiro. Algum significado deve ter isto.