Título: Preço cai e bem de consumo importado ganha espaço
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 26/09/2005, Brasil, p. A3

Conjuntura Lojas encomendam até 30% mais no exterior para o Natal

Uma calça jeans na exclusiva loja do Empório Armani, nos Jardins em São Paulo, baixou de R$ 1,2 mil para R$ 900. Está longe de ser "pechincha", mas atrai seu público-alvo. A grife, que importa 100% dos itens que comercializa no país e cujos preços recuaram por conta da queda do dólar, vendeu 40% a mais nos primeiros oito meses do ano ante igual período de 2004, conta a diretora de marketing Patrícia Gaia. Varejistas de roupas, bebidas, eletroeletrônicos, utensílios domésticos e automóveis importados já fizeram suas encomendas no exterior para este fim de ano e prevêem um Natal com maior quantidade e variedade de produtos importados. Eles esperam aumentar as vendas entre 15% e 30% nos últimos meses do ano. A valorização do real - que subiu 16% este ano ante o dólar, e 75% desde outubro de 2002 - reduziu o preço dos produtos importados e abriu espaço para uma maior presença desses itens nas lojas brasileiras. Enquanto importadores consolidados no mercado brasileiro fazem planos de crescimento de até 30%, quem acaba de desembarcar no país quer aproveitar a oportunidade para vender até 80% mais. Além do câmbio, os importadores citam o início da queda da taxa de juros, o aumento dos salários acima da inflação e a menor inadimplência como fatores que impulsionam o varejo. A preocupação fica por conta da crise política, que pode retrair o consumidor. "Esse vai ser um Natal com mais importados. A importação chega com preço mais baixo e a economia está aquecida", acredita Fernando Soares, diretor comercial da divisão consumidor da Expand, importadora de vinhos com 30 lojas espalhadas pelas capitais . A empresa, que também vende direto para restaurantes e atacadistas, espera aumentar entre 20% e 30% as vendas nos meses de novembro e dezembro, projeção que está em linha com a alta de 20% nas vendas de janeiro a agosto. Soares explica que a queda do dólar permite promoções. A importadora elevou os usuais 10% de desconto em alguns vinhos da promoção mensal para 40% e até 50%. Ele diz que os preços dos vinhos europeus caíram menos, já que o euro segue mais forte que o dólar, mas relata que um grupo de produtores italianos procurou a empresa para propor promoções. A Grand Cru chegou ao mercado brasileiro de vinhos no fim de 2002. Com o câmbio valorizado, reduziu em 10% a 15% o preços dos vinhos em 2005 ante 2004, conta Mariano Levy, sócio-diretor da empresa. O executivo diz que elevou suas vendas entre 70% e 80% até agosto e espera manter o percentual no fim do ano. "O câmbio deixa o vinho mais barato e atrai mais consumidores", diz Levy. A grife espanhola de roupas Zara deve aumentar as vendas entre 15% e 20% no último trimestre do ano, estima Pedro Janot, diretor-geral. "Não será nada espetacular, mas é um bom desempenho", diz o executivo. As vendas das 13 lojas da grife, que prepara sua expansão para o Nordeste com a inauguração de uma loja em Recife, aumentaram 15% de janeiro a agosto ante igual período do ano anterior. "O brasileiro é hipersensível a preço, mesmo nas classes A e B. O câmbio se reflete em maior consumo, pois tenho mais flexibilidade na marcação dos preços", diz Janot, acrescentando que os preços da loja caíram entre 6% e 7% desde o início do ano. Ele reconhece que parte do benefício do câmbio se transforma em margem para a companhia. A Zara está no Brasil há seis anos e importa 70% do que vende. Fernando Ribeiro, economista da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), estima que as importações de bens de consumo devem manter o bom crescimento até o final do ano. Até agosto, as compras externas desses produtos aumentaram 20,3%. "Mas não teremos um salto importador por causa do câmbio. Não dá para reproduzir o cenário de dez anos atrás", diz, referindo-se ao início do Plano Real, quando a equiparação entre dólar e real trouxe uma avalanche de importados ao Brasil. Ribeiro também pondera que a participação dos bens de consumo na pauta de importação do país não atinge 10%, o que reduz seu impacto para a balança. O economista acredita que o maior impulso ocorrerá na importação de bens duráveis, como automóveis e eletroeletrônicos. Segundo ele, esses produtos são ainda mais sensíveis ao câmbio do que alimentos, bebidas ou roupas. Os bens de consumo duráveis importados foram que os mais perderam mercado durante o período de desvalorização do real. Entre 2001 e 2003, quando o dólar chegou a R$ 4,00, a importação de bens duráveis caiu quase 50%, percentual bem superior aos 13% de queda da importação total. A multinacional americana Salton chegou ao Brasil em novembro de 2003. Segunda maior fabricante de eletrodomésticos portáteis do mundo, com faturamento de US$ 1,3 bilhão, é conhecida no Brasil pelo seu carro-chefe, o grill do boxeador George Foreman. Alfredo Pinotti, diretor-presidente da empresa, quer aproveitar a conjuntura favorável para crescer. A empresa faturou R$ 29 bilhões no Brasil, em 2004, e prevê entre R$ 50 e R$ 55 milhões em 2005. O executivo conta que já fechou suas importações para o fim do ano e projeta alta de 50% nas vendas. "O dólar é fundamental para melhorar as margens", diz Finotti. Os produtos da Salton são importados da China. O executivo prevê que muitos varejistas de grande porte também devem importar eletroportáteis da China neste Natal para vender barato e aproveitar o dólar abaixo de R$ 2,3. Com três lojas de utensílios de cozinha finos na grande São Paulo, a Suxxar é um exemplo de empresa que cresceu na esteira do Plano Real. "Crescemos muito, porque o consumidor perdeu o hábito de trazer tudo de fora", lembra Tuti Generale, uma das sócias da Suxxar. Ela diz que ainda hoje importa entre 85% e 90% dos produtos que vende - 20% diretamente e o restante via distribuidores no Brasil. Tuti participa de feiras internacionais na Alemanha e Estados Unidos. E é lá que compra os utensílios domésticos de primeira linha, hoje feitos na China. A executiva espera um aumento de 15% nas vendas em 2005 ante 2004 com a ajuda do câmbio. Mas duvida que o leque de clientes esteja crescendo. "São poucas pessoas comprando muito", diz.