Título: Preço não garante maior produção de café
Autor: Patrick Cruz
Fonte: Valor Econômico, 26/09/2005, Agronegócios, p. B11

Mercado Crise das cotações internacionais ficou para trás, mas foco atual do setor está no incentivo ao consumo

A crise dos preços internacionais do café, que se estendeu de 1999 ao ano passado, já é tratada pelo setor como um revés superado, mas os esforços de aumento de produção ainda estão longe de ser retomados de forma ostensiva. O foco principal do mercado tem sido o de incentivar o consumo da bebida, especialmente nos países em desenvolvimento, segundo as discussões da segunda Conferência Mundial do Café, realizada no fim de semana em Salvador, Bahia. "As condições ainda não estão dadas para se aumentar a produção", disse Gabriel Silva Luján, que comanda a Federação Nacional de Cafeicultores da Colômbia. Temos que esperar para ver como o mercado vai se comportar. Segundo o dirigente, está em andamento em seu país um programa que visa a elevar o consumo interno, em dez anos, do nível atual de 1,2 milhão de sacas para 4 milhões de sacas. "Adotamos muitas idéias que já foram usadas no Brasil, como melhoria da qualidade do café vendido no mercado interno e campanha de marketing para a promoção da bebida", diz. De 2001 a 2004, o consumo per capita de café no Brasil cresceu de 4,68 quilos por ano para 5,21 quilos. Na Colômbia houve movimento inverso: o consumo caiu de 1,95 quilos para 1,79 quilos. O governo brasileiro já manifestou a intenção de incentivar o aumento da produção do grão. A razão está ligada diretamente ao aumento do consumo da bebida no país - pretende-se, até 2010, atingir consumo de 20 milhões de sacas, segundo o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, o que tornará o país o maior consumidor mundial do produto. Pradeep Nandipur, da Federação de Produtores de Café da Índia, se diz cético com iniciativas de aumento de produção. "Ainda não há sustentabilidade para isso", disse. O motivo, segundo ele, é que a crise pode ter sido superada, mas ainda é muito recente - um aumento de produção logo depois de um longo período de preços baixos poderia levar o mercado novamente a enfrentar cotações reduzidas. A Índia é o sexto maior produtor mundial do grão. Em 2004 foram colhidas 4,8 milhões de sacas. Com o momento de busca por maior consumo em mercados ainda incipientes, a indústria lança suas armas. A Kraft Foods deverá apresentar em janeiro próximo, na China, uma campanha de marketing do Maxwell House, marca de café instantâneo que comercializa em alguns países europeus e asiáticos. Douglas Burns, vice-presidente sênior da empresa, afirma que a Rússia também está entre os novos mercados a serem explorados com maior afinco pela Kraft. A torrefadora italiana Luigi Lavazza anunciou a construção de uma fábrica de cápsulas de café expresso no Brasil, em projeto que consumirá, inicialmente, dois milhões de euros. Será o primeiro investimento do grupo para fabricação fora da Itália. A capacidade da planta será de produzir 15 milhões de cápsulas por ano, o que corresponde a 200 toneladas de grãos. "A capacidade poderá crescer, mas depende do sucesso da empresa", diz Giuseppe Lavazza, diretor de marketing da companhia. Segundo ele, ainda não se decidiu se a fábrica ficará em São Paulo, Espírito Santo ou Minas Gerais.