Título: Crédito pode dobrar em dez anos
Autor: Maria Christina Carvalho
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Finanças, p. C1

Financiamento ao Consumo Crescimento econômico e birô positivo inspiram otimismo

O mercado de financiamento ao consumo pode dobrar nos próximos dez anos, passando dos atuais R$ 138,4 bilhões para R$ 312 bilhões, se a economia mantiver um crescimento médio anual de 4% e o birô positivo de crédito for aprovado. Se a previsão se materializar, o crédito para a pessoa física passará de 7,2% para 12% do Produto Interno Bruto (PIB). Os números foram divulgados, ontem, no C4 Congresso de Cartões e Crédito ao Consumidor, organizado pela Partner Conhecimento, divisão da Partner Consultoria, com apoio do Valor Econômico. A expectativa com a futura criação do birô positivo de informações, ao lado do crédito consciente, foram as discussões que dominaram o primeiro dos três dias do C4. Para o mercado financeiro, o cadastro positivo de crédito - banco de dados com informações sobre o histórico de crédito e pagamentos dos tomadores de recursos - poderá ampliar a oferta de recursos e também reduzir a inadimplência e, portanto, o juro cobrado. O economista da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo, acredita que os juros cobrados no crédito podem cair pela metade com a redução do risco e o aumento da oferta de dinheiro. A taxa média do crédito para pessoa física era de 63% ao ano em julho. Há pelo menos dez anos o mercado financeiro se prepara para ter um birô positivo de crédito, mas esbarra em empecilhos legais. A experiência mais avançada é da Serasa - Centralização de Serviços Bancários, que suspendeu a operação do cadastro positivo depois que a Justiça a obrigou a pedir a cada tomador de crédito autorização para inclusão de suas informações com carta com aviso de recebimento. Segundo o presidente da Serasa, Élcio Anibal de Lucca, isso encareceu e inviabilizou o projeto. O que é amplamente disseminado é o cadastro negativo, que informa apenas se o cliente deixou de pagar compromissos. As esperanças foram renovadas depois que o presidente Lula encaminhou ao Congresso Nacional, no início do mês, projeto de lei que regulamenta o cadastro positivo. Inspirado no sistema americano, o projeto brasileiro traz novidades sobre a privacidade das informações processadas pelos bancos de dados. De acordo com a proposta, a abertura de qualquer forma de cadastro em banco de dados e a inclusão de informações sobre inadimplência deverá ser previamente comunicada ao cadastrado. Para evitar que os nomes das pessoas fiquem muito tempo na lista negra, o projeto de lei fixa em um dia útil o prazo para que lojas e bancos informem a regularização de obrigações. A preocupação, agora, é acompanhar de perto a tramitação do projeto de lei para evitar que "alguma distorção seja incluída", afirmou Lucca. Os participantes do C4, no entanto, receiam que a crise política prejudique a tramitação do projeto. "O projeto é de interesse do próprio governo. Mas a crise política é uma dificuldade adicional. Se não for aprovado neste ano ou no primeiro semestre do próximo ano, vai ficar para depois por causa das eleições", disse Solimeo. O projeto anima o setor financeiro também pela perspectiva de reduzir a inadimplência, que já caiu de 14,4% para 5,8%, considerando as operações vencidas há mais de 90 dias em relação ao saldo total do crédito. A recuperação da renda, crescimento da atividade econômica e ampliação da base de clientes ajudaram a diminuir a inadimplência, afirmou o economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Roberto Troster. O crédito consignado também ajudou, acrescentou Solimeo, fornecendo recursos mais baratos com os quais as pessoas liquidaram dívidas mais caras, no cheque especial ou crédito pessoal, por exemplo. A preocupação, disse, é que "as pessoas deixem de pagar outros compromissos como conta de luz ou a escola se o fôlego do consignado acabar".