Título: Sem educação financeira, expansão do crédito é perigosa para o sistema
Autor: Janes Rocha
Fonte: Valor Econômico, 21/09/2005, Finanças, p. C2
Se não for acompanhado de educação financeira, todo o crescimento do crédito pessoal observado nos últimos dois anos pode levar as pessoas ao consumo excessivo e ao sobreendividamento, com conseqüências desastrosas não só para o orçamento pessoal e familiar, mas também para a própria saúde do sistema financeiro. A análise é de especialistas que participaram ontem do painel "O Dinheiro Consciente", do Congresso de Cartões e Crédito ao Consumidor. Segundo dados apresentados pela seguradora Cardif, em uma pesquisa intitulada "Proteção do Orçamento Familiar", divulgada no último painel do primeiro dia do congresso, a participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro subiu de 23% a 24% em 2002 para 28% em 2005, e a projeção é superar 35% nos próximos dois anos. "Há uma absoluta inconsciência" dos brasileiros no momento da compra, que geralmente é feita por impulso, dentro da lógica de que "se (a prestação) cabe no bolso, dá para comprar", observou Vitor Morgensztern, consultor em desenvolvimento de pessoas e organizações da consultoria Dossier e da World Business Academy, entidade internacional dedicada à administração de empresas. Citando o filósofo Jean Beaudrillard, Helio Mattar, um dos fundadores e atual presidente do Instituto Akatu Pelo Consumo Consciente, relacionou a atual demanda por crédito à insegurança em relação ao desemprego que atinge todo o mundo capitalista. Essa insegurança, disse, tem gerado "uma sociedade ansiosa e dominada pelo medo", no qual as pessoas são levadas a crer que devem viver apenas o presente, sem se preocupar com o futuro. "É o mundo do aqui e agora, onde, naturalmente, o crédito é o instrumento central para antecipar os prazeres que não podem aguardar", afirmou Mattar. O resultado é que o consumidor perde a noção do limite de seus rendimentos e da capacidade de se endividar. Para Mattar, essa é a síndrome que atinge os Estados Unidos - país sempre tomado como referência entre os formuladores de políticas de crédito, públicas e privadas, como exemplo de como o dinheiro emprestado é acessível e cria riquezas. Dados do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), revelam que, somando os débitos tradicionais mais as hipotecas para compra da casa própria, os americanos devem hoje US$ 9 trilhões, o dobro do que deviam dez anos atrás. A dívida per capita no país, de US$ 7 mil, já acendeu o sinal de alerta dos economistas em todo o mundo. Eles prevêem uma catástrofe de inadimplência se, em algum momento, o Fed for obrigado a elevar muito a taxa de juros. "Estudos mostram que a dívida é a causa de 76% dos divórcios nos Estados Unidos", apontou Mattar, para ilustrar um dos aspectos sociais negativos da expansão exagerada do crédito no país, que é considerado o paradigma do mercado financeiro para toda a América Latina e o resto dos países emergentes. Embora já existam no Brasil algumas iniciativas isoladas e incipientes de educação para o crédito, estes especialistas dizem que é preciso fazer muito mais e que as empresas e instituições financeiras devem tomar a frente do processo, já que dificilmente o governo será pró-ativo nesta questão. "O cerne de tudo é a educação. Num país em que a educação (em geral) não é prioridade da sociedade, fica difícil educar para o crédito", avalia Osório Roberto dos Santos, um psicanalista que dá consultoria em desenvolvimento de pessoas para o Banco Real ABN AMRO, onde trabalha há 25 anos. Santos crê que de nada adianta a disseminação de "cartilhas" de crédito consciente se as instituições financeiras não "olharem para os clientes que estão tomando empréstimos" e procurarem orientá-los adequadamente, ao invés de só se preocuparem com a oferta de produtos e serviços para os clientes. Para ele, o mau uso do crédito pode significa a própria destruição do mercado que agora está em franca expansão, após décadas de declínio por causa da inflação.