Título: Dirceu recorre contra Conselho de Ética
Autor: Thiago Vitale
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2005, Política, p. A7

Crise Ex-ministro diz que prova contra si era testemunhal e que a principal testemunha retirou representação

O deputado federal José Dirceu (PT-SP) vê-se, na atual crise, como o epicentro de um bombardeio político da oposição e da direta brasileira. "Pode parecer falta de modéstia da minha parte, mas o que está acontecendo, mais do que julgamento sobre mensalão ou pagamento de caixa 2, é o julgamento da minha história, da minha participação no processo democrático do país e o que eu represento na esquerda", disse o ex-ministro-chefe da Casa Civil, na abertura de seu depoimento ao Conselho de Ética da Câmara na tarde de ontem. Antes de falar ao Conselho de Ética, o deputado protocolou na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara um recurso contra decisão do próprio conselho que decidiu ignorar o pedido do PTB de retirar a representação contra Dirceu e encerrar o processo de cassação do ex-ministro. Dirceu disse que vai procurar os tribunais, se for preciso, para garantir seus direitos. "O PTB retirou a representação contra mim. Essa retirada tem um peso político extraordinário, porque a principal prova contra mim era testemunhal e a principal testemunha retirou a representação", disse. Perguntado sobre qual é a representação dele no cenário político brasileiro, Dirceu manteve a postura. "Represento grande parte da história da esquerda brasileira e a vitória do presidente Lula". A reclamação do ex-ministro não é apenas contra os partidos da oposição. "Fui submetido a um linchamento público do dia para a noite. Virei chefe de quadrilha. Uma parte da mídia age como se fosse um partido político. Diversos editoriais pediram a minha renúncia", disse, em uma das diversas críticas à imprensa feitas ao longo do depoimento. Dirceu não conseguiu explicar direito qual foi a participação de Marcos Valério de Souza nos encontros dele com representantes do Banco Rural. Em depoimento ao Conselho de Ética na última semana, Kátia Rabello, presidente da instituição financeira, garantiu ter sido o empresário o intermediário dos encontros dela com Dirceu. Inclusive, a banqueira disse que partiu do ex-ministro a idéia de jantar com representantes do Rural em Belo Horizonte no dia 6 de agosto de 2003. Dirceu se defendeu. Leu uma nota na qual Kátia diz que a iniciativa do jantar foi do próprio banco. Mas não conseguiu se lembrar se Marcos Valério esteve em alguns dos três encontros com integrantes do Rural. "Posso checar isso. Vou enviar ao conselho todas as datas e os participantes dos encontros", afirmou. O relator do processo contra Dirceu, Júlio Delgado (PSB-MG) classificou as contradições entre um depoimento e outro como "fortes". "Ele (Dirceu) mesmo disse que testemunhos podem servir como provas. E a Kátia Rabello disse aqui diversas vezes que Marcos Valério fez a intermediação", disse o parlamentar. O deputado destacou novamente a falta de provas contra ele. Disse que nem a CPI dos Correios nem a do Mensalão provaram a existência de pagamento de mesada a parlamentares, muito menos a participação dele no esquema. "Não cometi nenhum ato que comprometa o decoro parlamentar. Minha ligação com os partidos aliados era institucional. Não posso concordar que o governo tenha permitido a montagem de um esquema de pagamento de mensalão, porque não permitiu", disse. Para ele, está sendo feito um julgamento político: "No entanto, mesmo em um julgamento político há necessidade de provas, sejam elas documentais, testemunhais ou a própria confissão de culpa". O ex-ministro afirmou que tinha conhecimento dos dois empréstimos tomados pelo PT junto ao Banco Rural, mas nunca foi informado dos demais empréstimos feitos pelas empresas de Valério para repassar ao partido sem contabilização. Dirceu negou ao Conselho de Ética que o BMG tenha participado da elaboração da medida provisória do crédito consignado. O ex-ministro disse que o texto da MP não sofreu nenhuma alteração no Congresso. A liderança do BMG na utilização da novidade aconteceu porque a instituição já tinha programa semelhante de crédito com servidores de Minas Gerais. Dirceu comparou o BMG ao grupo Avon e seus vendedores de porta-em-porta. A aproximação do BMG era com funcionário do governo estadual mineiro: "O banco tinha know-how nesse tipo de operação em Minas Gerais".