Título: Câmara elege presidente sob pressão do Planalto
Autor: Raymundo Costa, Maria Lúcia Delgado e Jaqueline Pa
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2005, Política, p. A7
Crise Disputa deve ir para o 2º turno com Thomaz Nonô e Aldo Rebelo
Num processo marcado pela ostensiva interferência do governo federal, a Câmara dos Deputados elege hoje seu novo presidente, 225 dias após escolher um azarão para dirigir a Casa - o ex-deputado Severino Cavalcanti, que renunciou semana passada para evitar a cassação do mandato e a perda dos direitos políticos por oito anos. Até as 18h de ontem, prazo final para o registro das candidaturas, dez deputados haviam se inscrito. Inclusive Vanderlei Assis (PP-SP), que teve menos votos para deputado federal (275) que o número de eleitores hoje na Câmara (513). Num quadro pulverizado, a eleição deve ir para o segundo turno, mas a disputa deve se dar mesmo entre os candidatos do governo, Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e da oposição, o deputado José Thomaz Nonô, (PFL-AL). O governo temia no final da tarde por um eventual fortalecimento da candidatura do deputado Ciro Nogueira (PP-PI), mas o apoio do PL a Aldo Rebelo e a manutenção das candidaturas do PP e do PTB interromperam o crescimento do deputado que é considerado uma espécie de herdeiro de Severino Cavalcanti no baixo-clero. O quadro de ontem à noite ainda pode mudar hoje com a eventual retirada de candidaturas. O deputado Michel Temer (PMDB-SP), por exemplo, pode renunciar à disputa, o que levaria o ex-governador do Rio Anthony Garotinho a descarregar seus votos em Ciro Nogueira. Garotinho só não admitiria indicar o voto em Nonô, por causa da relação política do pefelista com o prefeito do Rio, Cesar Maia, e com os tucanos. A surpresa do dia foi o apoio dado pelo 'Movimento Câmara Forte', grupo que apoiou a candidatura do deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) à presidência da Câmara na eleição de fevereiro, ao candidato do PTB, Luiz Antônio Fleury Filho (SP). Acredita-se, no entanto, que Fleury não terá o apoio integral do grupo. O que causou mal-estar entre os deputados foi a forte e ostensiva interferência do governo no processo eleitoral. Presidentes da República sempre interferiram na escolha, mas geralmente com discrição, nos bastidores, para evitar a acusação de interferência em outro Poder. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que em fevereiro não se envolveu, desta vez, convocou candidatos ao Palácio, ordenou que os ministros políticos atuassem em suas bancadas, prometeu cargos e abriu os cofres. A importância da eleição para Lula levou o jornal do 'Financial Times' dizer, em artigo, que o futuro de Lula em 2006 está intimamente ligado ao resultado de hoje. O PL aproveitou e pediu um ministério para compensar a saída do vice-presidente José Alencar do partido. Cobiça o Ministério da Educação. "Estou pronto para a briga", disse Lula, vestindo um quimono sobre o terno, num encontro com judocas. Era uma alusão à disputa na Câmara. Pela manhã, Lula já recebera Luiz Antônio Fleury junto com o ministro do Turismo, Walfrido Mares Guia, que é do PTB. Numa tentativa de reunificar a base aliada e quem sabe até tentar uma vitória no primeiro turno, o governo queria tirar Fleury da disputa. O deputado manteve a candidatura. Para o segundo turno é provável que o PTB ligado ao ex-deputado Roberto Jefferson vote no candidato da oposição. A ala liderada por Mares Guia deve ficar com o candidato governista. "O presidente foi muito elegante comigo. Mais ouviu que falou. Eu disse a ele que não via possibilidade de vitória de Aldo no primeiro turno", revelou o petebista. Segundo o deputado, já ficou combinada uma conversa entre ele e Lula no segundo turno, que está marcado para as 18h de hoje. "Claramente o governo entrou em campo e está trabalhando intensamente. Isso fez com que a candidatura de Aldo crescesse. Me parece muito claro", opinou Fleury. A aproximação do Palácio com o PTB dificultou os planos do chamado baixo clero, que articulava uma candidatura única de PP, PL e PTB. O acerto com o PL foi feito no gabinete do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, em conversas que reuniram Aldo Rebelo, o presidente do partido, o ex-deputado Valdemar Costa Neto (SP), o deputado João Caldas (AL), que deve retirar hoje sua candidatura, e Inocêncio Oliveira, que planejava se candidatar no lugar de Caldas, para tentar unificar o baixo-clero. A decisão do governo de interferir diretamente no processo eleitoral do Legislativo sem nenhum constrangimento provocou reações imediatas na oposição. Do outro lado da Câmara, no plenário do Senado, o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) demonstrava a irritação na tribuna: "Esse ministro dos Transportes está sendo obrigado a empenhar emendas que servem de mensalão para a eleição da Câmara. E as estradas brasileiras estão intransitáveis". A preocupação dos oposicionistas com a interferência do governo era um sinal claro de que a candidatura Aldo estava crescendo. "O candidato de oposição tem muito pouco a dar. Não tenho ministério. Se querem adotar essas práticas heterodoxas, não posso fazer nada", disse o candidato das oposições, José Thomaz Nonô (PFL-AL). A aposta de PFL e PSDB é no apoio de Michel Temer. Ele e Nonô encontraram-se na noite de ontem para uma conversa reservada. A expectativa é que Temer mantenha sua candidatura e renuncie em plenário, em favor de Nonô. Ele já conta oficialmente com os apoios do PFL, PSDB, PPS, PDT, PV e Prona. O cálculo da oposição é que Nonô larga com pelo menos 150 votos. Oficialmente, os candidatos podem renunciar até as 9h de hoje. Se Temer renunciar ao longo do processo, já na tribuna, o nome dele permanecerá na cédula e pode gerar confusão. Se houver segundo turno, a votação será iniciada às 18h. Para Temer, a eleição reflete o espírito da atual da Câmara. "A Casa está desarmonizada. Cabe ao próximo presidente buscar essa harmonia", disse o presidente nacional do PMDB, que também criticou a ingerência do Executivo na eleição. Os governistas tentavam justificar a legitimidade da ação do governo sobre a Câmara. "Não há nenhuma interferência diferente das que tradicionalmente ocorreram em disputas na Casa. Eu me lembro que o Fernando Henrique interferiu quando quis eleger Aécio Neves e Luiz Eduardo Magalhães", revidou o líder do PT, Henrique Fontana (RS). A candidatura de Aldo, segundo ele, é fundamental para estabilizar o Parlamento. "Se quiséssemos um candidato totalmente neutro, teríamos que buscá-lo em Marte", ironizou o petista.