Título: O poder interno do PT foi definido no primeiro turno
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Fonte: Valor Econômico, 28/09/2005, Opinião, p. A10

Contados os últimos votos do Processo de Eleições Diretas (PED) do PT, é possível concluir que a tese de refundação do presidente interino, Tarso Genro, teve pouca repercussão nas bases partidárias. O candidato do Campo Majoritário, Ricardo Berzoini, não conseguiu se eleger no primeiro turno, mas a facção que dominou o partido na última década e o jogou na mais profunda crise da sua história sai do processo eleitoral com a garantia de quase a metade dos votos do Diretório e reais chances de formar uma maioria na Executiva Nacional. Isso quer dizer que, mesmo na eventualidade de o candidato Raul Pont, da Democracia Socialista, vencer o segundo turno, o PT não dará um passo sem a concordância do Campo Majoritário. Os votos dos filiados foram dados a duas listas: uma, dos inscritos na disputa para a Presidência do partido; a segunda, das chapas ao Diretório Nacional. A votação nessa segunda chapa, no primeiro turno, definiu a composição do Diretório e da Executiva Nacional do partido. O Campo Majoritário tinha duas chapas ao Diretório: a "Construindo o Novo Brasil", que lançou Berzoini para presidente, e a "O Brasil Agarra Você", que apoiou Berzoini. Ambas somavam, no último mapa de votações, quase 43% dos votos. As negociações para o segundo turno feitas por Berzoini podem recompor a maioria anterior, na medida em que se aproximarem novamente do Campo o grupo dos irmãos Tatto - da chapa Socialismo e Democracia, que obteve 5,8% dos votos - e os dois grupos próximos à ex-prefeita Marta Suplicy. Antes da crise essas facções tinham praticamente fechado um acordo em torno da recandidatura do então presidente José Genoíno, recuaram por medo de serem associados aos escândalos e agora colocam a neutralidade na disputa pelo governo do Estado, em 2006, como moeda de troca. Os Tatto ameaçam votar em Raul Pont no segundo turno, mas a tendência é, sempre, uma composição com o Campo Majoritário no Diretório, seja quem for o presidente. O reforço dos "martistas" espalhados em três grupos faz o Campo Majoritário aproximar-se dos 50% dos membros do Diretório e da Executiva. Nacionalmente, a superioridade do Campo Majoritário é inegável. A facção conseguiu, já no primeiro turno, fazer o presidente de 15 das 27 seções estaduais e é um dos concorrentes nos sete Estados onde a disputa foi para o segundo turno. Diante desses números, não fica difícil entender a decisão de militantes históricos de saírem do partido antes mesmo do segundo turno. Disse o jurista Hélio Bicudo, na edição de ontem da "Folha de S. Paulo": "O Campo Majoritário vai continuar majoritário. Existem correntes que se dizem minoria que vão se compor e se aliar à atual direção". Mas, mais do que a oposição, fala em favor da tese de Bicudo o próprio Berzoini. Em entrevista a "O Estado de S. Paulo", ele faz uma ginástica política para insinuar que o partido pode virar uma grande pizzaria. Disse ele, ao sustentar que partido e Justiça não se misturam: "A Justiça apura a legalidade ou ilegalidade, o partido apura quebra do decoro ou ética partidária". Ilegalidade, portanto, não necessariamente contraria a ética partidária ou o decoro. E continuou : "Não há qualquer prova de corrupção neste caso. Há assunção de caixa 2, que é ilegalidade, mas não é corrupção". E insistiu: "Não vamos tentar misturar uma questão de legalidade com a situação partidária de cada um. A situação partidária vai ser examinada no momento apropriado, através dos instrumentos próprios do partido". Berzoini, que depende de alianças para manter uma hegemonia incontestável do seu grupo, chega à conclusão fantástica que o processo eleitoral do partido acabou dando "um crédito de confiança" a parlamentares que estão sendo julgados pelo uso do caixa 2. E conclui com a pérola: "Não podemos condicionar a militância de milhares de pessoas a um eventual julgamento político ou jurídico de algumas pessoas que têm história no partido e estão agora sendo acusadas de questões específicas". No parágrafo anterior, os juízos de valor são do candidato do Campo Majoritário à Presidência do PT, ex-ministro Ricardo Berzoini. O tal do discurso da refundação empunhado por Tarso Genro parece ter ido para o ralo junto com o PED. E o partido que se elegeu com a bandeira da moralidade consolida publicamente a convicção de que ilegalidades são pecadilhos que podem ser jogados para debaixo do tapete.