Título: Palco de confrontos no ABC, fábrica é movida por acordo de estabilidade
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2005, Empresas &, p. B7

Numa fábrica de automóveis que no passado já foi palco de toda a sorte de confrontos trabalhistas - de incêndios em carros dos executivos durante uma greve a protestos de famílias inteiras contra demissões em véspera de Natal -, os empregados da Ford de São Bernardo do Campo trabalham desde março de 2001 protegidos por um acordo de estabilidade que vai até o mesmo mês de 2006. Os metalúrgicos que trabalham no bairro do Taboão, em São Bernardo do Campo, começaram a se sentir ameaçados quando os recordes de produção na fábrica mais moderna e enxuta que a Ford construiu em Camaçari, na Bahia, se transformaram em notícias rotineiras. Com 3,6 mil funcionários da Ford e mais 4,9 mil dos fornecedores que ocupam o mesmo terreno, a unidade de Camaçari opera em três turnos e atingiu a marca de 500 mil veículos produzidos em apenas quatro anos de funcionamento. Em uma das pesquisas salariais feitas no setor automotivo, o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócios-Econômicos (Dieese) concluiu que o empregado de Camaçari leva três vezes e meia mais tempo de trabalho para alimentar a família do que o colega da mesma empresa, empregado em São Bernardo do Campo. Agora, véspera do fim do acordo de estabilidade, resta aos empregados do ABC negociar com a empresa modelos de produtividade que garantam lucro. É a única forma de evitar que os projetos de novos veículos não migrem para a fábrica mais enxuta, na Bahia. Em São Bernardo, a Ford tem 4 mil empregados, dos quais cerca de 800 trabalham na linha de produção de caminhões. O acordo de estabilidade de cinco anos para os operários da fábrica de São Bernardo foi fechado em Dearborn, sede da montadora nos EUA, por Luiz Marinho, hoje ministro do Trabalho. Marinho, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, foi aos Estados Unidos junto com Antonio Maciel Neto, presidente da Ford Brasil à época, para discutir com a direção mundial a questão do emprego no ABC. O acordo foi assinado em março de 2001 por Jacques Nasser, o executivo que estava no comando mundial da montadora americana. Depois de uma série de fatores que levaram a companhia ao prejuízo, Nasser foi demitido no semestre seguinte por Bill Ford, bisneto do fundador da companhia, que assumiu o cargo de presidente do conselho. (MO)