Título: Ford discute novo carro com sindicato
Autor: Marli Olmos
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2005, Empresas &, p. B7

Veículos Segundo presidente dos metalúrgicos, projeto, que se arrasta há mais de um ano, será fechado em até 45 dias

O projeto de um carro barato, que serviria, ao mesmo tempo como arma para a Ford crescer no mercado brasileiro e também como salvação para os mais de 3 mil metalúrgicos que trabalham na fábrica de automóveis da empresa São Bernardo do Campo, está próximo de ser anunciado, segundo os representantes dos trabalhadores. O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, José López Feijóo, garante que o plano estará concluído no prazo de 30 a 45 dias. Depois de meses de silêncio em torno do projeto do substituto do Ka, que começou a ser anunciado pela direção da Ford há mais de um ano, o presidente da operação na América do Sul, Antonio Maciel Neto, voltou a falar no assunto ontem, nos Estados Unidos, sede da montadora. Depois de proferir uma palestra em Washington, Maciel disse, em entrevista à rede "Bloomberg", que a companhia decidirá a respeito do desenvolvimento de um novo carro para o Brasil até o final do ano. O executivo lembrou que a Ford "não tem um produto competitivo forte" no segmento dos automóveis pequenos e baratos, que deverá apresentar o maior crescimento. O novo automóvel é a única maneira de a Ford aumentar a sua participação no mercado brasileiro. A montadora precisa ter um modelo na categoria que a indústria automobilística dá o apelido de "carro de entrada". São os modelos mais simples, com motor 1.0, que hoje custam abaixo de R$ 25 mil, e que representam a porta de entrada para a grande maioria dos brasileiros no mercado de automóveis zero-quilômetro. A montadora precisa de um modelo que consiga brigar com Gol, Celta e Mille, os "carros de entrada" de Volkswagen, General Motors e Fiat. A Ford tem o Ka. Mas não serve para os padrões brasileiros. Boa parte dos consumidores que está nesse segmento de mercado tem poder aquisitivo limitado, mas precisa colocar uma família no carro compacto. No banco traseiro do Ka só cabem duas pessoas. É por isso que o acordo de colaboração entre montadoras para redução de custos no desenvolvimento de produtos, como o que foi recentemente firmado entre a própria Ford e a Fiat mundialmente, não serve para o Brasil. No caso, as duas vão se unir para buscar um substituto para o Fiat 500 e o Ford Ka no mercado europeu. Mas, para o Brasil, a empresa precisa pensar num veículo maior. Uma das alternativas seria usar a própria plataforma do Ka para fazer um modelo parecido com maior capacidade no banco traseiro. Da fatia em torno de 13% que a Ford tem no mercado brasileiro de automóveis, somente 2% saem das vendas do Ka. Trata-se de uma porção muito menor que nas demais montadoras, que alcançam com os "carros de entrada" percentuais em torno de 13%. Para efeito de comparação, na General Motors, 57,5% dos carros vendidos no país são modelos com motor 1.0. A média mensal de vendas do velho Uno Mille, da Fiat, supera 10 mil unidades. A do Ka ficou em 1.037 em setembro, abaixo até de carros bem mais caros, como Corolla, Civic e Astra. Para fazer um carro só para o Brasil, a Ford precisa investir. E isso foi o que travou o desenvolvimento do projeto nos últimos meses. Como a operação brasileira passava por um processo de recuperação financeira, a direção mundial da Ford decidiu se concentrar nos carros que garantem mais lucro. Há cerca de um ano, a vice-presidente mundial da Ford para as regiões da América do Sul, México e Canadá, Anne Stevens, disse que o projeto estava engavetado naquele momento porque carros baratos não dão lucratividade. Agora, as operações na América do Sul, onde o peso do Brasil é de mais de 70%, atingiram o lucro, o que pode trazer mais otimismo aos negociadores do projeto. Feijóo parece mais otimista do que nunca. A idéia é fabricar o novo carro em São Bernardo do Campo, onde pouco mais de 3 mil trabalhadores que operam as linhas de montagem do Ka e da picape Courier estarão com os empregos ameaçados a partir do dia 31 de março de 2006. Nesta data se encerra um acordo de estabilidade que o sindicato firmou com a direção mundial da Ford há quatro anos.