Título: Liquidez é problema resolvido, diz BC
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 28/09/2005, Finanças, p. C1
Pressão Monetária Cenário incerto em 2006 pode provocar nova fuga de títulos públicos
Após um progressivo trabalho de enxugamento que durou pouco mais de dois anos, o Banco Central considera um problema resolvido o excesso de liquidez (recursos livres) na economia, criado nas eleições de 2002. Mas a forte concentração de vencimentos da dívida interna nos próximos 12 meses não impede a volta desse quadro, caso se repita um cenário adverso em 2006. O chefe do Departamento de Operações do Mercado Aberto do BC (Demab), Ivan de Oliveira Lima, afirma que em agosto, pelo segundo mês consecutivo, a autoridade monetária atuou no mercado aberto injetando recursos no curtíssimo prazo, em vez de absorver excesso de liquidez. "O excesso de liquidez é um problema resolvido", afirma. O excesso de liquidez - que chegou ao volume recorde de R$ 80,7 bilhões - surgiu em 2002, em decorrência das incertezas na eleição do presidente Lula e da mal conduzida implantação da regra de marcação a mercado de títulos públicos em carteira de fundos de investimento. Naquele período, investidores deixaram de comprar títulos e passaram a aplicar seus recursos operações de mercado aberto de curtíssimo prazo do BC. O excesso de liquidez deixa a economia vulnerável porque, em episódios de estresse no mercado financeiro, facilita a fuga de investidores para ativos reais, como dólar. Lima diz que, após um longo processo, o BC conseguiu eliminar esse excesso de liquidez. O termômetro dessa melhora é a drástica redução dos financiamentos com prazo menor de 30 dias tomados pelo BC no mercado aberto. Mais que isso: o BC vem atuando com freqüência na na ponta inversa, concedendo financiamentos no mercado aberto. Em agosto, foram R$ 2,32 bilhões nessas operações. O BC, porém, não deixou completamente de enxugar recursos no mercado. Mas o grosso das operações é de prazos superiores a 30 dias. Em agosto, a autoridade monetária tomou um total de R$ 46,7 bilhões em financiamentos, em operações compromissadas prefixadas contratadas com prazo de três meses. Alguns observadores econômicos sustentam que o prazo desse financiamentos é relativamente curto, e seu volume, alto. De certa forma, portanto, a economia não deixaria de conviver com um quadro de excesso de liquidez. O chefe do Demab discorda da avaliação. "Mundo afora, bancos centrais fazem operações de 20 ou 30 dias, e nem por isso se fala em excesso de liquidez." Também não considera que o volume de R$ 46,7 bilhões em operações com prazo de até três meses seja muito elevado. "É um volume plenamente palatável, considerando que as operações não vencem em apenas um dia." Ele lembra que o BC já não emite mais títulos, e que, portanto, toda a política monetária é feita no mercado aberto. "Há vários países, como o México, em que o BC tem passivos maiores." O chefe do Demab reconhece, porém, que na hipótese de se repetir um impasse como ocorrido em 2002, a tendência é encurtar o prazo dessas operações compromissadas. Nesse cenário hipotético, a economia voltaria a conviver com um quadro de excesso de liquidez. Mas ele pondera que esse é um cenário independente do volume de operações compromissadas do BC. A variável-chave para uma rápida expansão da liquidez é o perfil de vencimentos da dívida interna. Em agosto, 42,71% da dívida total (que soma R$ 920,79 bilhões) tinha vencimento em período inferior a um ano. Em tese, caso haja um estresse forte e prolongado no mercado, essa dívida pode não ser renovada, ampliando novamente o volume de recursos na economia. Esse não é, porém, o cenário com que o BC trabalha. Lima assinala que, nos últimos anos, houve uma progressiva melhora no perfil da dívida e uma consistente redução na liquidez. O principal fator por trás do enxugamento, afirma, são os superávits primários. Apenas de janeiro a agosto, o superávit primário retirou R$ 28,398 bilhões do mercado. O volume mais do que compensa a expansão do dinheiro na economia provocada pelas compras de dólares pelo BC, que somaram R$ 27,004 bilhões no período. Outra força por trás da redução da liquidez foi a colocação de títulos pelo Tesouro. "Estão sendo renovados mais de 100% dos vencimentos", diz Lima.