Título: Com Kirchner, presidentes da América do Sul tentam avançar no livre comércio
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 29/09/2005, Brasil, p. A3
A proposta de formação de área de livre comércio na América do Sul até 2010, feita pelo Chile; a proposta brasileira de eliminar exigência de vistos e passaportes para sul-americanos entre países do continente; e uma lista de sugestões de integração, formulada pelos presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e do Uruguai, Tabaré Vasquez, deverão concentrar atenções na segunda reunião da Comunidade Sul-Americana de Nações , a partir de hoje, em Brasília. Após rumores de que faltaria ao encontro, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, garantiu ao governo brasileiro, por intermédio do ministro de Relações Exteriores , Rafael Bielsa, que comparecerá. "Estamos muito contentes com a presença da Argentina", disse ao Valor o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que recebeu a notícia da vinda de Kirchner por telefone, em Trinidad Tobago, quando voltava de viagem aos EUA. "A Argentina é uma parceira estratégica para nós; sobre ela se baseia nossa estratégia de integração com a América do Sul", disse Amorim. Não virão os presidentes do Suriname, da Guiana e da Colômbia. O colombiano Uribe argumentou que não poderia vir ao Brasil duas vezes em seguida. Ele deu preferência a um encontro sobre café, em que os governos dos dois países anunciaram ação conjunta no mercado internacional. Para Amorim, os dados do comércio são um dos principais argumentos em favor da estratégia de fortalecimento dos laços com os países da América do Sul. "Houve crescimento muito expressivo de nossas vendas no continente: 39% de janeiro a agosto deste ano, após um ano em que as exportações para a região já haviam crescido 54%", comemorou o ministro. "Para a Venezuela, o aumento foi de 186%, em 2004, sobre 2003, e já cresceu mais 63% neste ano", contabilizou. "Para a Colômbia, o aumento está em 42%, depois de aumentar 46% no ano passado." O ministro reconhece que a proposta chilena sofre resistências de alguns países, que consideram muito curto o prazo de 2010 para estabelecimento de uma zona de livre comércio na América do Sul. "Nós apoiamos", insiste. A expectativa do governo é aproveitar a reunião para discutir formas de aproximar as normas e preferências comerciais dos diversos acordos de abertura de comércio firmados entre os diversos países do continente. O governo brasileiro tenta, sob resistência de governos preocupados com terrorismo ou invasão de mercados de trabalho, facilitar o deslocamento de sul-americanos, com a extinção da exigência de visto e passaporte, como já ocorre entre os países do Mercosul. Com uma tabela que, aparentemente, pretende usar bastante nos próximos dois dias, Amorim compara dados e comenta que a participação, no total de exportações, das vendas brasileiras para a América Latina está apenas 0,5 ponto percentual abaixo das exportações à União Européia. "Não são as vendas aos europeus que diminuem, são as outras que crescem", comenta. Nega, porém, que o comentário signifique o abandono dos clientes tradicionais dos exportadores do país. "O que não precisamos é esquecer o resto do mundo, onde existe maior potencial de crescimento de exportações." Amorim comentou que o presidente Lula discutirá com Kirchner os atritos entre os dois países, por causa da retenção de calçados brasileiros na fronteira. O melhor canal para essa discussão é a comissão bilateral em que o ministério do Desenvolvimento representa o Brasil, comenta, lembrando que, apesar dos problemas em alguns setores, também o comércio com a Argentina tem crescido vigorosamente, ainda que em menor ritmo que no passado recente. Em 2003, o crescimento das exportações ao vizinho foi de 99%, em recuperação após forte retração nos anos anteriores; em 2004, 61% e, neste ano, o aumento é de 35%. O governo brasileiro, que resiste à criação de uma estrutura formal muito burocratizada para a Comunidade Sul-Americana de Nações, terá de lidar com uma demanda entusiasmada dos presidentes Chávez e Vasquez, respectivamente no comando da Comunidade Andina de Nações e do Mercosul, pela criação de uma "Comissão Sul", nomeada para formular um "Plano Estratégico 2005-2010" para a integração sul-americana. O plano, na proposta dos presidentes, deveria prever até a criação de um Banco da América do Sul, para financiar a integração regional. "Pode ser discutido, mas não é coisa da noite para o dia", avalia Amorim.