Título: BC trocou o hoje pelo amanhã
Autor: Claudia Safatle
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Brasil, p. A2

O Banco Central mirava numa inflação de 5,1% para este ano, ao elevar os juros desde setembro de 2004. Deve acertar numa taxa menor. Conforme o Relatório de Inflação divulgado ontem, a inflação esperada para este ano é de 5%, medida pela variação do IPCA. Um pouco abaixo, portanto, da meta ou "objetivo", como o BC prefere chamar os 5,1%. Para 2006, mantendo juros e câmbio atuais, a inflação desmancharia para a casa dos 3,5%, bem abaixo, portanto, dos 4,5% já estabelecidos, percentual definido também como a meta de longo prazo para a inflação brasileira. O relatório manteve a mesma previsão de 3,4% para o crescimento do PIB este ano. Patamar abaixo dos 4,3% de crescimento da economia mundial e muito aquém dos 6,4% de crescimento previsto pelo Fundo Monetário Internacional para as economias emergentes. Numa tentativa de isolar os resultados da política macroeconômica do que está acontecendo no resto do mundo - crescimento forte das economias e elevada liquidez internacional --crescer entre 3% e 4% este ano não é performance a ser celebrada nem de longe pelo governo do PT. Equivaleria, mal comparando, a não ter crescido nada em 2001, quando o mundo estava com desempenho bastante modesto e o Brasil teve variação de 1,3% do PIB. Representa, portanto, estar acumulando atrasos em relação aos demais países emergentes. Ao avisar que a inflação deve mesmo ficar abaixo da meta ajustada deste ano e que pode despencar no ano que vem, o Banco Central estaria confirmando a suspeita de que vem sendo ortodoxo demais, quase dogmático nos últimos meses, atribuindo elevado peso para a rápida derrubada da inflação e baixo peso à manutenção de uma taxa razoável de produto (PIB - Produto Interno Bruto). Afinal, se o IPCA deste ano ficar em 5%, representará uma queda de 2,6 pontos percentuais em relação ao IPCA de 7,6% de 2004, o que não é pouco. Suspeita levantada inclusive pelo sempre discreto ex-presidente do BC, Armínio Fraga, em entrevista recente. Numa visão um pouco mais otimista, porém, poder-se-ia contra-arrestar os críticos da ortodoxia do BC dizendo que a autoridade monetária exagerou na dosagem dos juros para derrotar a inflação agora, mas que está apontando o país para um futuro muito promissor. Seria uma troca entre o hoje e o amanhã. Pode ser esta uma estratégia, mas é preciso lembrar que o custo dessa transição tem sido extremamente oneroso, seja medido em atividade econômica, seja pelo impacto dos juros reais na dívida interna como proporção do PIB, que não cairá. Ao contrário, pode até aumentar um pouco em relação aos 51,7% de 2004. O Banco Central tem sido oportunista, o que não é demérito. Aliás, isso é da natureza dos bancos centrais. Ele está usando enquanto pode dos bons ventos externos, da taxa de câmbio valorizada que ele próprio ajuda a produzir (além, é claro, dos generosos preços das commodities) e da queda dos preços agrícolas, que também têm certa influência da taxa de câmbio, para demolir com as pressões inflacionárias.

O mal se faz de uma vez; o bem, a conta gotas. E os juros?

A questão que se coloca é se não seria melhor reduzir os juros mais rapidamente do que deixar o país ir para uma taxa de inflação mais baixa do que a meta. Até porque o principal choque positivo vem da taxa de câmbio e não é propriamente um choque imprevisto, mas fruto também do mecanismo de transmissão da política monetária. Essa é uma inquietação que procede se confrontada com a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro de 2004, quando o BC avisou que ia buscar para 2005 uma taxa de inflação de 5,1% e deixou claro um outro aspecto importante: que trataria choques negativos e choques positivos de maneira assimétrica. A ata dizia: " É importante sublinhar que o Copom interpreta o objetivo de 5,1% para a inflação de 2005 como exercício judicioso da flexibilidade proporcionada pelo intervalo de tolerância estabelecido pelo CMN em torno de sua meta central para a inflação, intervalo esse que permanece inalterado. O fato de que a política monetária passará a objetivar uma inflação já superior à meta central antes mesmo que se inicie seu período de aferição sugere que novos choques que venham a perturbar a dinâmica inflacionária sejam tratados de forma assimétrica. Assim, o Copom precisará ser ainda menos tolerante em relação a choques que ameacem tornar a inflação maior do que o seu objetivo de 5,1% em 2005, tirando ao mesmo tempo proveito máximo de eventuais choques favoráveis como oportunidade para reaproximar a inflação da trajetória de metas estipulada pelo CMN". Se apropriar de choque positivo para acelerar a desinflação, porém, não é uma decisão trivial. É claro que há aí uma dose de discricionariedade do Banco Central que poderia, ao invés disso, deixar o produto crescer um pouco mais. Com certeza, há quem defenda tratamento simétrico de choques sem que isso fira qualquer base teórica do regime de metas para a inflação nem seja considerado um "desenvolvimentista" irresponsável. A constatação de que a inflação em 2005 ficará abaixo da meta também fará engrossar o coro dos que, no governo, questionam a eficácia do atual "mix" de política macroeconômica. Aqui não se trata dos petistas que querem um novo modelo seja qual for, mas dos que, com a responsabilidade de quem comanda partes relevantes da área econômica, acham que algo está errado nos juros de 19,50%, câmbio derretendo, forte desaceleração inflacionária e a insistência do presidente Lula em fazer o superávit primário das contas públicas voltar para 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB), quando o superávit acumulado até agora é da ordem de 6% do PIB. Existe, sim, um receio de o governo estar, com essa política, plantando uma futura volatilidade cambial. Pena que os poucos interlocutores que têm tentado tratar desses temas com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, não estejam encontrando qualquer eco para uma eventual discussão. O que faz lembrar o período do primeiro mandato do governo anterior, quando o debate foi interditado.