Título: Para Lula, Venezuela vive "excesso de democracia"
Autor: Sergio Leo
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Brasil, p. A6
Contente pela presença, em Brasília, do arredio presidente argentino, Nestor Kirchner, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou o primeiro evento com chefes de Estado da reunião da Comunidade Sul-Americana de Nações para elogiar enfaticamente outro entusiasta da integração regional, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. "A Venezuela nunca teve um presidente que tenha usado tão bem os recursos do petróleo para o povo pobre", disse Lula. "A Venezuela vive um excesso de democracia", prosseguiu Lula, em resposta à oposição que acusa Chávez de tentar controlar a imprensa, o Judiciário e a política locais, com a ação direta dos militantes bolivarianos e mudanças na legislação. Chávez "apanhou muito" e "comeu o pão que o diabo amassou", mas venceu as eleições, obteve apoio popular para a reforma da Constituição, convocou referendo para o próprio mandato e foi confirmado, relatou Lula, ao discursar na cerimônia em que anunciou acordos entre os dois países em petróleo e gás natural. "Não posso fazer como o Chávez, porque não sou moço como ele, e não tenho tanto petróleo", fez questão de afirmar Lula, temperando os elogios com a garantia de que não se espelha no exemplo do colega. Chávez elogiou Lula por começar "bem" a reunião de cúpula com o encontro bilateral em que firmaram os acordos entre Petrobras e a venezuelana PDVSA. "Fracassam os que tentam conter os ventos da integração", sentenciou, mais uma vez afirmando-se como estrela e primo rico na comunidade sul-americana. A vinda de Kirchner ao Brasil, após evasivas, foi atribuída na imprensa argentina à expectativa de acordos milionários com o venezuelano, de compra de bônus argentinos e equipamentos agrícolas. Uma ausência sentida na Cúpula sul-americana foi a do presidente do Uruguai, Tabaré Vasquez, que ocupa a presidência temporária do Mercosul. Vasquez alegou, ao governo brasileiro, estar muito cansado após vinte dias de agenda internacional contínua. Uma proposta de Vasquez e Chávez (este também na presidência temporária da Comunidade Andina), de criação de uma "Comissão Sul (Conasur)" para institucionalizar a atuação da Comunidade Sul-Americana e coordenar ações conjuntas em setores como infra-estrutura constrangeu o Itamaraty, que já vinha discutindo com os outros países uma estrutura mais informal e menos burocratizada ao novo organismo. O assunto deve ocupar parte da reunião dos presidentes, hoje. "Há uma declaração já aprovada, com uma institucionalização básica da Comunidade Sul-Americana, incluindo reuniões presidenciais, ministeriais, setoriais", informou o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, comemorando também a criação de um "Foro de Consulta Política" entre os governos do subcontinente. A declaração presidencial a ser anunciada hoje terá uma manifestação em favor da área de livre comércio com todos os países da América do Sul. Foi rejeitada, porém, a fixação da data de 2010, proposta pelo Chile, para formação da área de livre comércio.