Título: Contas de Valério não registram empréstimos ao PT
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Política, p. A10

A CPI Mista dos Correios recebeu ontem a contabilidade oficial das empresas de Marcos Valério de Souza, acusado de operar o pagamento do mensalão no Congresso. Os documentos comprovariam a tese de que Valério nunca emprestou R$ 55,9 milhões ao PT. Os livros de contabilidade das empresas SMP&B e DNA Propaganda entre 2003 e 2005, apreendidos pela Polícia Federal com o contador Marco Aurélio Prata, não apontam os empréstimos, segundo o sub-relator de movimentações financeiras da CPI, deputado Gustavo Fruet (PSDB-PR). A CPI desconfia da versão apresentada por Valério e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares para justificar os repasses de recursos para parlamentares e diretórios regionais do PT. Os parlamentares afirmam que os empréstimos serviam para maquiar repasses ao PT de dinheiro público recebido por Valério em contratos com estatais. Fruet afirmou ter informações de que Valério já teria pedido a correção dos documentos contábeis para incluir os empréstimos. "Mas se a mudança for feita, ele vai ser vítima da própria esperteza", disse. Nesse caso, explica, ficará configurada "agiotagem" das empresas de Valério. "Será fraude contra o sistema financeiro porque uma agência de publicidade não pode emprestar dinheiro", afirmou. Segundo ele, já há indícios de corrupção, crime contra o sistema financeiro e falsidade ideológica de Valério. Na sessão de ontem, a CPI aprovou a contratação de uma empresa de auditoria externa para analisar contratos privados, fundos de pensão e rastrear contas no exterior. Ao mesmo tempo em que faz pequenos avanços, a CPI, que seria encerrada oficialmente em 11 de dezembro, deve ser prorrogada até 2006. Em meio a um show de insultos e bate-bocas intermináveis entre governistas e oposicionistas, ontem, o presidente da CPI, senador Delcídio Amaral (PT-MS), declarou que pedirá a prorrogação dos trabalhos até o próximo ano. "Vamos até o fim para concluir os trabalhos. Isso aqui só acabará quando as quatro sub-relatorias completarem sua missão", sentenciou. "Em pizza isso aqui não acaba", reforçou o relator Osmar Serraglio (PMDB-PR). Delcídio irritou-se com a estratégia dos governistas de esvaziar a sessão de ontem para atrasar a votação de convocações e quebras de sigilo. "Não vou compactuar com esse tipo de manobra. É lamentável que a bancada do governo não esteja presente", reclamou. A manobra da bancada do governo teria sido uma forma de evitar a convocação de Dario Messer, apontado como o "Banco Central dos doleiros" e o principal operador do PT em supostas remessas e contas mantidas pelo partido no exterior. Na linha de frente da estratégia, e da ira da oposição, ficou a senadora Ideli Salvatti (PT-SC). O deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) acusou Ideli de orientar sua bancada, especialmente os deputados Nelson Meurer (PP-PR) e Nélio Dias (PP-RN), a deixar a sessão para evitar o número mínimo à aprovação da quebra de sigilo de onze corretoras envolvidas em prejuízos nas operações com fundos de pensão. "Isso é uma atitude de vereadora, não de senadora", disse. A CPI tem patinado ao longo dos últimos 20 dias por razões eleitorais e pela estratégia do governo. Na semana passada, faltou quórum para votar a mesma quebra de sigilo das corretoras. Na ocasião, não estavam presentes nem mesmo os autores do requerimento - os pefelistas Antonio Carlos Magalhães Neto (BA) e Onyx Lorenzoni (RS). (MZ)