Título: Eleição na Argentina não deve dar maioria a Kirchner
Autor: Paulo Braga
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Internacional, p. A11
Racha Presidente seguirá dependendo de rivais em seu próprio partido
Nem crescimento econômico de mais de 7% este ano nem a aprovação da maioria da população devem bastar para que o presidente argentino, Néstor Kirchner, consiga no mês que vem uma vitória eleitoral suficiente para garantir ao governo maioria no Congresso. O principal problema de Kirchner é que a oposição mais forte à sua gestão está hoje dentro de seu próprio partido, o Justicialista (PJ, também chamado de peronista). Seu maior adversário na legenda é o ex-presidente Eduardo Duhalde. A maioria dos analistas, apesar de prever um avanço eleitoral do presidente, acha que Duhalde manterá peso importante no Congresso. Como na eleição de 23 de outubro o Legislativo será renovado apenas parcialmente (dois terços da Câmara e um terço do Senado), o presidente não poderá transferir totalmente ao Congresso o apoio popular construído nos seus dois anos de governo. Segundo pesquisa feita em meados deste mês pela consultoria Poliarquia, 57% dos argentinos têm uma imagem positiva de Kirchner, uma queda importante em relação ao pico atingido em julho de 2003, quando o índice chegava a 83%, mas ainda assim um número alto. Mesmo com popularidade alta, o governo pode perder a eleição na capital e em províncias importantes, como Santa Fé e Mendoza, e a bancada duhaldista deve continuar incomodando ao presidente. Anteontem, os duhaldistas, com apoio da oposição, mostraram os problemas que podem causar se persistir o racha no peronismo. A Câmara aprovou em primeira votação um projeto suspendendo por 120 dias as execuções de dívidas de financiamento imobiliário, iniciativa rejeitada pelo Executivo. A expectativa de analistas é que depois de 23 de outubro a bancada fiel a Kirchner na Câmara fique em torno de 100 deputados, do total de 257. Isso contando os peronistas que não se declaram "kirchneristas" mas votam com o governo, geralmente pressionados por governadores aliados ao presidente. Essa bancada significaria um crescimento em relação ao número de parlamentares hoje fiéis ao Executivo, que são cerca de 90. No Senado a situação é mais cômoda, já que 33 dos 72 senadores já apóiam o governo, e é possível que o bloco se amplie, mas sem atingir a maioria. Assim, Kirchner continuará tendo de buscar alianças. Outro incômodo para Kirchner é que voltarão à cena política personagens que usarão o Congresso como palanque contra o governo. Devem ser eleitos senadores dois ex-presidentes peronistas com ambições declaradas de voltar ao cargo - Carlos Menem e Adolfo Rodríguez Saá. Duhalde, outro ex-presidente, deve estar representado no Senado por sua mulher, Hilda "Chiche" Duhalde. Já a bancada da oposição esquerdista na Câmara será reforçada por Elisa Carrió, que ficou em quarto lugar na eleição presidencial de 2003 e é hoje a figura política com melhor imagem pública depois de Kirchner. "O governo vai conseguir uma vitória, mas não na proporção esperada anteriormente", disse o cientista político Sergio Berensztein, da Universidade Torcuato di Tella. Ele notou que, diante da dificuldade de conseguir um resultado eleitoral mais expressivo, Kirchner retirou de seu discurso o pedido à população para que fizesse da eleição um "plebiscito" sobre sua gestão, passando a prever apenas uma "vitória digna" do governo. O analista acredita que, na melhor das hipóteses, Kirchner controlará 40% da Câmara, e terá de negociar com setores não alinhados do peronismo e com os deputados ligados a governadores. Outro analista político, Ricardo Rouvier, concorda com a previsão de que Kirchner ampliará seu bancada na Câmara, mas sem obter a desejada maioria. "Sabemos que o governo vai ganhar, mas não o tamanho da vitória, e uma certeza é que ele não terá maioria", disse. Rouvier acredita que, do ponto de vista simbólico, o governo obterá uma vitória parcial. Entre os candidatos ao Senado pela província de Buenos Aires, a favorita é a primeira-dama Cristina Kirchner. Mas, na votação para deputados, a lista governista está em terceiro lugar, atrás das listas de Carrió e do presidente do clube Boca Juniors, Mauricio Macri.