Título: Crise política reforça debate sobre ética
Autor: Carolina Mandl
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Empresas &, p. B2
Governança Poucas companhias fazem menção explícita às relações entre o setor público e o privado
Os 17 mil funcionários da Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) estão dando os últimos retoques em uma publicação que ditará o comportamento deles no trabalho: o código de ética. Cerca de 2.400 trabalhadores já deram seus palpites. Isso porque daqui a cerca de um mês, todos eles terão de assinar um documento se comprometendo a seguir os mandamentos de conduta desse código. Mas não são apenas os funcionários da Sabesp que terão de obedecer a esse tipo de documento. Pela lei americana de governança corporativa Sarbanes-Oxley, todas as companhias com ações listadas nos Estados Unidos precisam ter um código de ética ou explicar a seus investidores por que não o têm. Depois dos escândalos corporativos de empresas como Enron e WorldCom, essa é uma tentativa do governo americano de melhorar a ética dos negócios. As companhias brasileiras ainda estão correndo para se adaptar a essa regra. Segundo pesquisa feita pela consultoria Deloitte, até julho deste ano, das 36 empresas brasileiras listadas nos Estados Unidos, 80% tinham um código de ética. "Esse é um número elevado quando se considera que não existe a obrigatoriedade de ter um código", afirma Bruce Mescher, sócio-diretor da Deloitte. No entanto, outras seis, como a Sabesp, informaram à Securities and Exchange Comission (a Comissão de Valores Mobiliários americana) que ainda estão considerando criar um código de ética. Pesquisa feita pelo Valor mostra que esse também é o caso de Sadia, Tevecap, Telesp (Telefônica) e Tele Norte Leste Participações. Além disso, essas 29 companhias que têm um manual de conduta ainda representam um ínfimo grupo dentro do universo das empresas brasileiras. Para Paulo Itacarambi, diretor-executivo do Instituto Ethos, a existência de um código de ética poderia evitar escândalos de corrupção como os atuais, envolvendo o nome de políticos e de empresas. "Por trás de um corrupto sempre existe um corruptor. Um código de ética exprime pelo menos que a empresa tem uma preocupação em relação ao assunto", explica Itacarambi. Levantamento feito pelo Valor nos códigos de ética das empresas brasileiras listadas em Nova York mostra que nem todos ainda trazem citações explícitas sobre as relações entre o setor público e do privado, tema que demonstra preocupação em relação à corrupção. Mas ter um documento de regras de conduta é garantia de mudança de comportamento ou do fim da corrupção? Para a Sabesp, a implantação do código trará mudanças positivas. "A Sabesp acredita que à medida que der uma resposta às denúncias de desvio de conduta, o ambiente de trabalho irá melhorar", afirma Sílvio Valdrighi, superintendente de auditoria da companhia. Para Lélio Lauretti, coordenador do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa e consultor de ética empresarial, não é o papel que definirá o comportamento ético das pessoas. "Não creio que a ética possa ser ditada por um manual. Mas o código pode dizer qual a conduta que a empresa pede que seus funcionários tenham", explica Lauretti. De acordo com Bruno Speck, cientista político da Universidade de Campinas, o que pode também contribuir para a mudança de postura das empresas é a cobrança dos investidores. "A corrupção deve ser tema de discussão de uma boa governança corporativa", afirma o professor que participou ontem de um seminário promovido pelo Ethos para discutir o papel das empresas no combate à corrupção. Segundo ele, até agora as empresas foram o lado menos cobrado dos escândalos de corrupção porque o cidadão tem mais meios é de cobrar que ele elegeu para representá-lo. Já para Lauretti o motivo é outro. "Elas foram as menos investigadas até o momento porque representam o lado econômico, o poder. Não interessa a ninguém desmascarar quem forneceu o dinheiro."