Título: Tesouro deve comprar até US$ 11,2 bi em 2006 para pagar dívida externa
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Finanças, p. C2
O Tesouro Nacional terá em 2006 um plano mais ambicioso de compra de dólares no mercado de câmbio, para quitar compromissos da dívida externa. Segundo projeção do balanço de pagamentos divulgada ontem pelo Banco Central, o governo irá adquirir até US$ 11,266 bilhões em moeda estrangeira no mercado doméstico, o que equivale a dizer que, em tese, até 100% dos vencimentos de principal e juros da dívida serão amortizados com essa fonte de recursos. A contrapartida dessa estratégia é que o Tesouro não precisará utilizar recursos das reservas internacionais, que, pelas projeções do BC, voltarão a crescer em 2006. O Tesouro já deu início ao seu plano de compra de dólares para 2006, adquirindo US$ 3,99 bilhões por meio do Banco do Brasil. Mudaram, também, os planos para o pagamento da dívida externa neste ano. Em vez dos US$ 8,9 bilhões anteriormente divulgados, as aquisições de moeda em mercado somarão US$ 10,006 bilhões - a diferença, de US$ 1,1 bilhão, refere-se à decisão de adquirir dólares também para bancar a recompra de C-Bonds anunciada para outubro. O diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua, informou que o Tesouro já adquiriu integralmente os recursos previstos para 2005. Paralelamente, está mantida a intenção do BC de comprar dólares diretamente em mercado para reforçar as reservas internacionais, preservado o compromisso de não adicionar volatilidade na taxa de câmbio, nem de determinar a tendência da taxa. Para o ano que vem, a projeção oficial do balanço de pagamentos contempla uma sobra (tecnicamente conhecida como hiato financeiro) de US$ 5,5 bilhões no mercado de câmbio. Em tese, o BC pode adquirir todo esse volume. "O BC pode voltar a comprar a qualquer momento", disse Bevilaqua. "Pode ser daqui a meia hora, em alguns dias ou em meses." Nas projeções oficiais do balanço de pagamentos, porém, o BC assume a hipótese conservadora de que não comprará nada. Ainda assim, as reservas internacionais deverão voltar a crescer. Pelo conceito de reservas líquidas, que excluem os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), devem chegar a US$ 51,5 bilhões em dezembro de 2006, ante US$ 44 bilhões em dezembro deste ano. Pelo dado mais recente, de agosto, as reservas estavam em US$ 40,402 bilhões, bem acima dos US$ 27,541 bilhões em dezembro de 2004. Como nos dois anos anteriores, o BC volta a projetar uma situação de equilíbrio na conta corrente externa em 2006 (haveria um leve saldo positivo, de US$ 500 milhões). Neste ano, a projeção é um saldo de US$ 9,5 bilhões, ou 1,26% do Produto Interno Bruto (PIB). O principal fator por trás da queda do superávit em conta corrente é a redução do saldo esperado na balança comercial, projetado em US$ 29 bilhões em 2006, abaixo dos US$ 38 bilhões estimados para este ano. A queda do saldo em conta corrente se explica, por um lado, por uma certa acomodação na demanda externa, em virtude do aperto na política monetária em economias desenvolvidas. "Será um cenário positivo, mas não tão exuberante", disse Bevilaqua. Ele assinalou ainda que deverá ter continuidade o crescimento da demanda interna, puxado pelo aumento do emprego, da renda real e da massa de salários. Bevilaqua vê com bons olhos a queda do saldo em conta corrente. "Um saldo da ordem de 2% do PIB é elevado para uma economia que está crescendo. Significa abrir mão da contribuição da poupança externa para o crescimento", disse. "Se o país tiver uma conta corrente zerada ou um pequeno déficit, ninguém vai achar que se configura uma situação insustentável." Segundo Bevilaqua, o saldo em conta corrente registrado em anos recentes foi uma resposta aos choques externos sofridos pela economia, que cortaram o financiamento externo. Essa não é a primeira vez que o BC projeta equilíbrio em conta corrente para o ano seguinte - isso ocorreu nos dois últimos anos. Mas as projeções foram revistas em decorrência do desempenho positivo das exportações. Nas projeções do balanço de pagamento para 2006, o BC toma como pressuposto que as empresas privadas vão renovar 70% das dívidas que tiverem vencimento. Dessa forma, captariam US$ 5,3 bilhões por meio de papéis e US$ 1,7 bilhões em empréstimos diretos. A hipótese é que o Tesouro capte US$ 4,5 bilhões em 2006. Há algumas semanas, o Tesouro anunciou que pretende captar US$ 9 bilhões até 2007, dos quais US$ 2,5 bilhões já foram captados em bônus em reais. O investimento direto é previsto em US$ 16 bilhões, mesmo volume estimado para 2005. Nos cálculos do BC, está previsto um pagamento de US$ 7 bilhões ao FMI. Em razão disso, as reservas brutas praticamente não terão alteração entre 2005 e 2006, passando de US$ 58,7 bilhões para US$ 59 bilhões. Em agosto, as reservas totais se encontravam em US$ 55,076 bilhões.