Título: Para Bevilaqua, juro alto não valoriza real
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 30/09/2005, Finanças, p. C2

O diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua, defendeu ontem a tese de que a recente valorização da taxa de câmbio se deve à melhora dos termos de troca do país. Ele discordou das avaliações de que a forte carga de juros imposta pela autoridade monetária tenha valorizado a moeda nacional. Segundo Bevilaqua, desde o ano passado se observa o aumento de preços internacionais de produtos exportados pelo Brasil. "É natural a taxa de câmbio se valorizar. O país ficou mais rico", defendeu o diretor do BC. O aumento internacional de preços, argumentou, pode ter dois tipos de conseqüência na economia brasileira. Uma delas seria o aumento da inflação interna, com a manutenção do nível de taxa nominal de câmbio. Foi, segundo ele, o que houve em fins de 2004, quando a economia brasileira viveu um curto período de alta dos índices de inflação. Em contrapartida, a taxa de câmbio não registrou movimento tão significativo no mesmo período. Outro possível reflexo da alta dos preços externos é uma valorização da taxa de câmbio, com estabilidade de preços dentro do país. Foi, segundo ele, o que ocorreu recentemente. "Agora, a política monetária está segurando os preços domésticos." Bevilaqua sustenta que, do ponto de vista prático, os dois desdobramentos resultam numa taxa real de câmbio mais valorizada. Mas o ajuste sem inflação é considerada uma solução superior pelo diretor do BC, pois inflação iria corroer renda, inibindo tanto o consumo das famílias quanto o investimento. Bevilaqua sustenta que, ao contrário do apontado por alguns observadores econômicos, os juros internos mais elevados não são responsáveis pela valorização da taxa de câmbio. Segundo ele, ao mesmo tempo em que o BC elevou a taxa básica (Selic) em 3,75 pontos percentuais, países desenvolvidos também fizeram movimentos nos juros. Ou seja: o diferencial entre taxas internas e externas cresceu menos do que à primeira vista. O diretor do BC mostra que o balanço de pagamentos é a maior prova de que não está havendo um fluxo de capitais estrangeiros em busca de altos juros. Quadro do relatório de inflação de setembro mostra que o grosso dos capitais que ingressam no país é de longo prazo. De janeiro a agosto, entraram US$ 15,5 bilhões em capitais de longo prazo, e US$ 5,3 bilhões em capitais de curto prazo. (AR)