Título: Cauteloso, varejo retarda pedidos para o setor têxtil
Autor: Heloísa Magalhães, Vera Saavedra Durão e Francisco
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2005, Brasil, p. A3
A indústria têxtil e de confecções, que costuma ampliar a produção a partir de setembro para atender as encomendas de fim de ano, já sente um atraso nos pedidos do varejo. A estratégia do comércio de retardar as compras junto à indústria se explica pela combinação de juros altos e real apreciado. Essa conjuntura retrai a demanda interna e favorece a importação de têxteis da China. Apesar do quadro, há um otimismo moderado na indústria têxtil em relação ao Natal. "O fim de ano é sempre bom em termos de vendas", diz Josué Gomes da Silva, presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit). Uma análise feita pela entidade sobre as expectativas para o fim de ano mostra que o setor espera uma expansão de no máximo 4% para o último quadrimestre em relação a igual período do ano passado. Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit, disse que, no início de 2005, o setor trabalhava com a expectativa de crescer 5% este ano na comparação com 2004, mas o número foi revisto para a faixa dos 3%. "Os setores (industriais) que atendem aos chamados bens-salário (itens de consumo) têm sido prejudicados com a demanda interna fraca", ponderou Pimentel. Ele afirmou que o varejo irá demandar têxteis confeccionados da indústria para o Natal, mas previu que as encomendas serão "da mão para a boca". Ou seja, os pedidos chegarão ainda mais tarde do que em 2004, refletindo cautela do varejo, avaliou. Pimentel acrescentou que o inverno deste ano não foi rigoroso, o que gerou estoques indesejáveis na indústria e no varejo. Ezequiel Guimarães, gerente de administração de vendas da Teka Tecelagem Kuehrich, de Blumenau (SC), aponta outro fator para explicar por que os pedidos do varejo estão sendo cada vez mais retardados: o comércio quer diminuir os estoques e trabalhar quase em regime de "just in time". O problema é que essa situação poder criar dificuldades para a indústria atender pedidos feitos de última hora. "Ainda não sentimos o aquecimento do varejo, mas há sinais de que as vendas de fim de ano devem ser melhores do que em 2004", previu Guimarães. Ele estimou que em artigos específicos de Natal, como toalhas de mesa e panos de copa bordados com motivos natalinos, o crescimento deve ficar entre 10% e 15% sobre 2004. A Teka, que produz toda a linha de cama, mesa e banho, tem a expectativa de dar férias coletivas entre o Natal e o Ano Novo, prática usual entre as empresas do setor em Blumenau, quando o varejo já foi atendido e cai a atividade na cadeia produtiva têxtil. Guimarães avaliou que só no fim de outubro será possível ter visão mais clara sobre o nível de demanda em novembro e dezembro, o que poderia levar a empresa a suspender as férias coletivas para repor o estoque do varejo. Para que isso ocorra, porém, será preciso que se confirme uma demanda forte.