Título: Indústria já prepara Natal até 20% maior
Autor: Heloísa Magalhães, Vera Saavedra Durão e Francisco
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2005, Brasil, p. A3
Conjuntura Recuperação de renda, oferta de crédito e dólar barato traçam cenário para festas de fim de ano
A indústria está se preparando para o Natal em clima de otimismo moderado. O cenário se apóia na recuperação da renda do trabalhador, na oferta de crédito e no dólar barato. As indústrias de eletroeletrônicos, linha branca, compressores, celulares, computadores e de produtos de beleza esperam crescimento entre 4% e 20% na sua produção no último trimestre de 2005, em relação a igual período de 2004, devido às festas de fim de ano. Ao mesmo tempo em que o crédito vai continuar impulsionando a venda de produtos de maior valor agregado, a recuperação recente da renda e a redução do desemprego criam fôlego extra para produtos mais baratos, como é o caso da indústria de bebidas, têxteis, cosméticos e alimentos. Um exemplo é O Boticário. Artur Grynbaum, vice-presidente da empresa, iniciou um périplo de reuniões com seus franqueados em preparação para o Natal e espera crescimento de 20% na produção entre outubro e dezembro. "Já começamos a trabalhar com três turnos, desde a semana passada", disse. Essa expectativa favorável baseia-se na avaliação de que uma parcela de consumidores, com menor renda disponível, opta por bens de baixo valor, o que ele chama de "magia da beleza". Ricardo Vontobel, presidente do grupo Vonpar, engarrafadora da Coca-Cola no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, concorda com a análise de Grynbaum. Para ele, os bens de consumo não-duráveis sofrem menos com a taxa de juros, pois não dependem do crédito. O empresário trabalha com expectativa de expansão entre 10% e 15% das suas vendas no Natal. O grupo vende anualmente 130 milhões de caixas de refrigerantes e água mineral, além de ser também distribuidor da Kaiser nos dois Estados. A venda de cerveja, uma das bebidas preferidas nas festas de fim de ano, deve ter desempenho semelhante nos negócios do grupo Vonpar no Natal. Outros segmentos industriais têm sido estimulados pela queda do dólar e pela oferta de crédito. É o caso dos celulares, que absorvem metade de componentes importados. Nesse caso, os preços para os fabricantes estão caindo, mas resta saber se as operadoras vão repassar a queda para os clientes ou vão aproveitar para melhorar as margens apertadas, como lembra Fábio Castanheira, diretor regional de vendas da Kyocera. Para ele, este vai ser o Natal do celular com música, o MP3. Outra empresa de celulares, a Siemens, espera que as vendas de telefones celulares neste Natal sejam 15% superiores às do mesmo período de 2004. "O setor vendeu quase 7 milhões de terminais nos meses de festas no ano passado e deve ultrapassar os 8 milhões neste ano", disse o vice-presidente da fabricante alemã, Humberto Cagno. Segundo ele, a Siemens investiu ? 6 milhões na unidade de Manaus para se preparar para o Natal e atender às exportações. Paulo Saab, presidente da Eletros, associação que responde por 25 indústrias dos setores eletroeletrônicos, linha branca e portáteis, espera crescimento da produção de 4% no último trimestre do ano, ante o mesmo período do ano passado nas três linhas de produção que representa. "Se esse crescimento se confirmar, estaremos retomando o crescimento da produção desses segmentos depois de cinco anos consecutivos de perdas", destacou. Saab aposta no DVD como a provável vedete das festas natalinas. "O DVD é o carro-chefe da produção de imagem e som e tem sido muito solicitado pelo comércio", relata Saab. Na Abinee, a visão é também positiva quando se fala em produção de computadores, mas no tocante a encomendas domésticas de componentes pelas indústrias instaladas na Zona Franca de Manaus há pessimismo, devido às importações beneficiadas com uma redução de 88% na alíquota de importação na região. "Com o dólar batendo em R$ 2,213 é difícil a competição", avaliam representantes dessa indústria. No caso dos fabricantes de compressores para motor de geladeira e freezer, a estimativa é de um crescimento na produção de 11% a 12% no último trimestre do ano, o que sugere um bom Natal, regado pela oferta de crédito e pelo 13º salário. A perspectiva é que, pela primeira vez nos últimos quatro anos, o 13º não estará tão comprometido com pagamento de dívidas. Segundo as projeções do economista Nelson Rocha Augusto, diretor presidente da BBDTVM, o salário mínimo está injetando R$ 18 bilhões na economia, o crédito consignado pode alcançar R$ 3,5 bilhões e o crédito total disponível pode atingir este ano 30% do Produto Interno Bruto (PIB), tudo isso em um ambiente de aumento de emprego. Esse quadro está levando boa parte da indústria a acreditar em Papai Noel.