Título: No Brasil, 60% dos jovens nunca vão ao cinema
Autor: Juliano Basile
Fonte: Valor Econômico, 05/11/2004, Brasil, p. A-4
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) apresentou ontem dados de uma pesquisa sobre os hábitos da juventude brasileira, que revelou um quadro de profunda exclusão digital, cultural e educacional. Segundo a pesquisa, 62% dos jovens brasileiros (entre 15 e 29 anos) não estudam, 87% não freqüentam teatro, nem museus, 60% não vão a cinemas e bibliotecas e 59% nunca ou quase nunca foram a estádios e ginásios esportivos. A pesquisa ouviu 10.010 jovens brasileiros. Quanto à exclusão digital, 35% dos entrevistados disseram que nunca costumam usar computador, enquanto 21% deles declaram que o usam todos os dias. Quando o acesso ao computador e à internet é olhado por classes sociais, a exclusão é ainda mais violenta: 42% dos jovens das classes A e B utilizam o bem todos os dias, enquanto na classe C isso é feito por apenas 9% dos jovens de 15 a 29 anos. Ontem, durante a apresentação da pesquisa, o governo anunciou que pretende criar a Secretaria Nacional da Juventude e reservou espaço no orçamento do próximo ano para que a medida saia do papel. O objetivo do novo órgão será atender a uma demanda da economia do país. O Palácio do Planalto concluiu que a mão-de-obra jovem e desqualificada é um obstáculo para o crescimento.
O Brasil possui 34 milhões de jovens (entre 15 e 24 anos), dos quais 16 milhões estão fora da escola (abandonaram ou não fizeram qualquer curso). Entre os que estudaram, 5 milhões não passaram da 5ª série. Pelas projeções de população, em 2010, o país terá 50 milhões de jovens. A Secretaria será vinculada ao Palácio do Planalto e não terá status de ministério. A idéia foi levada para o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que concordou com o novo órgão. Foi aberta uma "janela" de R$ 8 milhões no projeto de lei orçamentária de 2005, mas a verba da Secretaria Nacional de Juventude será bem maior. Os R$ 8 milhões são meramente simbólicos para que o governo tenha a garantia de verba para projetos na área da juventude. Essa verba será elevada no envio da lei para o Congresso. A Secretaria coordenará os projetos espalhados na Esplanada dos Ministérios que tratam direta ou indiretamente da juventude. O Planalto calcula que existem quase 50 projetos dispersos em 18 ministérios. O Ministério do Trabalho, por exemplo, tem o Primeiro Emprego que não trata apenas de jovens. A pasta do Desenvolvimento Social possui o Agente Jovem, específico para ações sociais organizadas entre a juventude. A soma de todos esses projetos no Plano Plurianual do governo, previsto para vigorar entre 2004 e 2007, chega a R$ 60 bilhões. O aumento da população jovem desqualificada está na agenda do governo. Em 2002, 21% dos bebês foram de mães entre 15 e 19 anos. Elas, provavelmente, terão maiores dificuldades para prover melhores condições de educação aos filhos. Além da Secretaria, o governo quer criar o Conselho Nacional da Juventude. O secretário-geral da Presidência da República, ministro Luiz Dulci, afirmou, ontem, durante lançamento de pesquisa da Unesco sobre a juventude, no Hotel Nacional, em Brasília, que o Conselho atuará na elaboração de políticas para a promoção da juventude. Já a Secretaria cuidará da execução dos projetos. O Conselho deverá formular programas em três áreas básicas: aceleração educacional (conclusão do ensino médio), qualificação de mão de obra e trabalho social. Ele será composto por integrantes do governo e da sociedade. O trabalho apresentado ontem pela Unesco também mostrou que, apesar dos problemas que enfrentam diariamente, a grande maioria dos jovens - 69% dos entrevistados -se diz "satisfeito" com a vida, enquanto 22% estão insatisfeitos. Outro aspecto abordado pela pesquisa foi a visão da juventude sobre a política e a Justiça. Entre os entrevistados, só 8% dos jovens das classes A e B confiam nos partidos políticos, enquanto entre os jovens das classes D e E, essa confiança sobe para 19%. A Justiça tem maior credibilidade: 58% dos jovens das classes D e E afirmam confiar nela. Esses percentual é de 44% entre a juventude da classe C e de 39% entre os jovens da classe A.