Título: "Experiência brasileira é inédita"
Autor: César Felício
Fonte: Valor Econômico, 03/10/2005, Especial, p. A12

Até 1985 o economista sul-africano Terry Crawford-Browne trabalhava no sistema financeiro. Era um especialista na gestão de recursos de empresas e pessoas no exterior. Naquele ano migrou para a assessoria do bispo anglicano Desmond Tutu e atuou para que os bens de empresas que compactuavam com apartheid fossem congelados. Hoje, pertence à Ong internacional "Economistas Unidos pela Redução das Armas" (Ecaar, em inglês). Na última semana, Crawford-Browne esteve no Brasil, a convite da Fundação Konrad Adenauer e da organização católica 'Núcleo Fé e Cultura', para palestras sobre a relação entre a militância social e a globalização. Concedeu a seguinte entrevista ao Valor. Valor: Em que medida o referendo do Brasil pode ter repercussão internacional? Terry Crawford-Browne: O que ocorre no Brasil cria um precedente no mundo. É um modelo para nós. Jamais se fez esta experiência em qualquer país, mesmo nos que já adotaram leis restritivas, como Austrália, Reino Unido e Japão. Na África do Sul, nossa principal preocupação no momento é mobilizar a sociedade para diminuir os gastos militares do governo, da ordem de US$ 5 bilhões ao ano. Em um país carente como o nosso, há uma disputa social por estes recursos e a consulta popular pode ser um instrumento a ser defendido. Valor: A África do Sul é um dos raros países em que o quadro de violência urbana é pior do que no Brasil. Como se chegou a esta situação? Crawford-Browne: Meu país sempre foi violento. Na reta final do apartheid, entre 1980 e 1994, vivemos uma grande militarização. Até o fim do apartheid, o governo encorajava as pessoas brancas a comprarem armas para a própria defesa. Com a ascensão de Nelson Mandela, foi a vez do poder público eliminar as restrições para as pessoas negras se armarem. As armas obviamente proliferaram muito. Tornou-se comum policiais e proprietários de armas virarem o principal alvo de organizações criminosas, interessadas no roubo de revólveres e pistolas. O índice de homicídios cometidos com armas de fogo subiu da ordem de 40% para 50% do total. Diminuiu a tensão racial, mas a separação entre ricos e pobres persistiu, sobretudo com uma taxa de desemprego média de 40%, como a que ostentamos. Valor: E o que os governos Mandela e Thabo Mbeki (eleito em 1999) fizeram a respeito? Crawford-Browne: Entidades ligadas à Igreja Anglicana se mobilizaram para tentar desarmar a população. Por causa desta campanha, o novo governo criou um "Fire Arms Control Act" criando o porte e o registro de armas e limitando muito a sua concessão. Foi um passo menos avançado que o brasileiro. Não tenho certeza se foi em função desta legislação que o número de homicídios começou a declinar , ou se foi pela mobilização da sociedade civil. Valor: Em que medida o grande capital colaborou para esta mobilização? Crawford-Browne: Esta foi uma das grandes decepções que tivemos, não só em relação ao problema atual, mas em relação à própria luta pelo fim do apartheid. As principais corporações sul-africanas, ao invés de pressionarem o governo, transferiram as sedes para o exterior entre os anos de 80 e 90 como forma de ficarem livres das sanções internacionais. Isto se manteve depois que o apartheid acabou. As grandes empresas de nosso país não são mais sul-africanas propriamente ditas. Valor: Qual o objetivo último dos movimentos internacionais contra as armas? Crawford-Browne: Coibir o comércio internacional de armas leves e, em um passo adiante, a utilização de armas pelo poder público. Quando o governo usa a violência, a sociedade a entende como aceitável e pede armas para si. Um governo que evita a utilização de armas passa a mensagem que o uso da violência não é aceitável. O comércio de armas leves é lesivo porque elas são muito utilizadas, em países da África, por exemplo, pelas milícias em nações que enfrentam guerra civil. É comum o uso das crianças-soldadas, só comcapacidade física de manejar um revólver ou pistola, que chegam pelo contrabando ou pela triangulação com outros países. O Brasil sabidamente é um dos maiores exportadores do mundo deste tipo de armamento. É um comércio que rende cerca de US 100 milhões para o Brasil e gera cerca de 5 mil empregos diretos. Isto é pouco para o Brasil e as conseqüências geradas são grandes. Valor: Há como medir o impacto econômico da violência urbana na África do Sul? Crawford-Browne: É difícil avaliar isto. O fato é que a violência urbana para nós gera um ciclo que perpetua nossos problemas. Vivemos a tragédia de termos 21,5% da população urbana contaminada pela Aids, mas uma parte dos gastos com saúde pública têm que ser destinados para o atendimento das vítimas da violência armada. Empresários encerram seus negócios, restringindo ainda mais empregos onde o desemprego é de pelo menos o dobro do observado no Brasil. O impacto é tão grande que se torna impossível medir. (CF)