Título: O retorno da universidade
Autor: Marcelo Côrtes Neri
Fonte: Valor Econômico, 11/10/2005, Opinião, p. A13
Dinheiro não traz felicidade, mas certamente não atrapalha. O principal determinante observável isolado da renda é a educação. Os estudiosos do crescimento e os da desigualdade têm nos convencido, mais e mais, da importância da escola na vida das nações e das pessoas. No aspecto distributivo, tivemos há tempos a oportunidade de aprender sobre a importância da educação após o livro seminal de Carlos Langoni, de 1973. Oportunidade que não foi então aproveitada. Na época, falar em capital humano era comparável a falar focalização hoje - ou seja, um palavrão. A analogia do capital humano com os outros tipos de capitais é procedente. É verdade que ativos reais, ou financeiros, não ficam desempregados, muito menos têm filhos ou se aposentam, mas a comparação dos retornos é válida. Ao fim e ao cabo, temos de colocar nossos ovos em alguma cesta, seja de produtos financeiros, seja na educação nossa de cada dia. No livro premiado Strategic Asset Alocation, John Campbell e Luis Viceira, da Universidade de Harvard, desenvolvem modelo de alocação de portfólio ao longo do ciclo de vida, onde o capital humano é tratado como um ativo com propriedades particulares, mas colocado lado a lado dos demais. Um dos modelos mais populares em análises do retorno da educação são as equações mincerianas de salário. Deste exercício aplicado ao Brasil contemporâneo, aprendemos que, quando comparamos pessoas com o mesmo sexo, educação, região, raça etc, mimetizando a trajetória do ciclo de vida de uma mesma pessoa, o pico da renda de trabalho se dá aos 51 anos. Exercício semelhante aplicado à chance de o individuo dispor de ocupação revela que o pico ocorre dez anos antes, ou seja, aos 41 anos. O que impressiona nas séries é que o formato das curvas, em forma de sino, aponta para um aumento da renda e da chance de emprego crescente na juventude, até o pico na meia idade, e a queda daí para a frente. Agora, a questão central é: qual o retorno relativo de diferentes carreiras universitárias?
Doutores em administração, medicina e economia ganham cerca de 270% mais do que aquelas pessoas que nunca freqüentaram a escola
Avaliamos, a partir dos microdados do Censo 2000, o impacto de diferentes cursos no desempenho trabalhista, observado a posteriori para pessoas com o mesmo background inicial. O objetivo é indicar os maiores retornos econômicos do investimento educacional. Os melhores cursos em termos de salário são mestrado ou doutorado em administração (MBAs ou DBAs), em medicina e em economia. Os salários de oriundos destes cursos é cerca de 270% maior do que quem nunca freqüentou a escola. Quando analisamos a probabilidade de conseguir um emprego, o líder disparado é o mestrado de medicina. As pessoas com essa qualificação têm chance de ocupação 18 vezes maior do que os sem escola. A chance dos outros dois que estão no podium dos salários é a metade da observada nos doutores ao quadrado da medicina. O pódio da ocupação é completado pela graduados em medicina e da computação - um sinal dos tempos. No ranking dos salários dos ex-alunos de graduação, a liderança está para medicina, engenharia e direito. O pior colocado é teologia. O que impressiona na série é a regularidade do ranking com que cursos. Por exemplo, cursos completos apresentam salários maiores que cursos incompletos, seja no ensino fundamental, seja no ensino médio. Ou seja, a hierarquia dos níveis educacionais se espelha no ranking trabalhista. Mesmo no caso da alfabetização de adultos, o salário é 9% maior e a chance de ocupação 66% maior do que dos adultos que nunca freqüentaram a escola. Desculpem-me os céticos, mas educação é fundamental.