Título: Sem medo da moeda forte
Autor: Adriana Cotias, Luciana Monteiro e Danilo Fariello
Fonte: Valor Econômico, 11/10/2005, EU &, p. D1

Banco Central volta a comprar dólar, mas apatia com fundos cambiais prevalece

Na esteira do aumento da tensão no mercado internacional - com a perspectiva de uma alta maior que a esperada no juro americano - e da retomada dos leilões de compra de dólar pelo Banco Central (BC), os fundos cambiais já aparecem como destaque de rentabilidade neste início de outubro. Segundo levantamento do site Fortuna, até o dia 6, essas carteiras renderam, em média, 2,73%, ante 2,99% da divisa no mesmo período. Em comparação com o Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI) - que serve de referência para os fundos de renda fixa-, o ganho é bem superior ao 0,28% do indicador. Mas, mesmo com a presença de um grande comprador no mercado de câmbio brasileiro, a percepção dos gestores é de que os investimentos atrelados ao dólar ou mesmo ao euro só fazem sentido para quem tem passivos em moeda estrangeira ou, quando muito, uma viagem internacional na agenda. Do ponto de vista especulativo, a concorrência ainda está a favor das aplicações referenciadas em juros, ainda elevados, ou em renda variável, com a bolsa em ótimo momento, avaliam. "A não ser que o BC entre com o firme propósito de fazer o dólar subir, não creio numa desvalorização grande do real, porque o fluxo de dólares para o país continua forte tanto do lado comercial quanto do lado financeiro", diz o diretor da Fibra Asset Management, Fábio Watanabe. Para o especialista, o ambiente de liquidez abundante no mercado externo prosseguirá trazendo o capital estrangeiro para os ativos locais, especialmente num momento em que há a perspectiva de elevação do rating soberano do Brasil pela Moody's Investors Service, a mais conservadora das agências de classificação de risco. Se isso realmente acontecer, os títulos ficam mais próximos do "investment grade" (grau de investimento) - a nota que representa papéis com menor risco - e, portanto, poderão atrair ainda mais recursos para o país. Embora venha comprando somas consideráveis de dólar, o BC não dita o rumo da cotação da moeda. No máximo, mantém um nível mínimo para a taxa de câmbio, avalia o estrategista-chefe de investimentos do Private do BNP Paribas, Marcelo Rached Rached. O economista Marcelo D'Agosto, sócio do site Fortuna, acrescenta que, embora a economia brasileira tenha obtido um equilíbrio precário a custa de juros elevados, a balança comercial mudou de patamar e só uma ruptura justificaria a fuga de divisas do país, o que, em tese, jogaria o dólar para cima. No ano, a balança acumula saldo positivo de R$ 33,746 bilhões, até a primeira semana de outubro. No mesmo período, o volume de produtos exportados pelo Brasil é de quase R$ 90 bilhões - 26,4% acima do acumulado no mesmo período em 2004. "O potencial de valorização do dólar, hoje, é limitado por esse superávit comercial e pelo elevado juro, que atrai capital especulativo", diz. Rached, do BNP Paribas, acrescenta que a cotação do dólar é suscetível também a fatores alheios à racionalidade do mercado financeiro, como a crise política brasileira. "Isso torna a cotação da moeda ainda mais instável e, por conseqüência, eleva o risco das aplicações baseadas na variação cambial." Paulo Veiga, sócio da Mercatto Investimentos, é enfático: o investidor deve manter distância do dólar como forma de investimento. Para ele, o custo de oportunidade, tendo em vista a taxa básica de juros no nível de 19,5%, deixa a aplicação na moeda americana pouco interessante. Para compensar o investimento, o dólar precisaria sair da atual cotação de R$ 2,24 e chegar a R$ 2,64 em 12 meses - cenário pouco provável na visão do executivo. "O custo de oportunidade é algo crucial quando se pensa em investimentos no Brasil", afirma. Reforça a perspectiva de que a divisa americana não tem fôlego para apresentar uma forte alta o saldo em conta corrente positivo e a queda do endividamento em dólar do governo brasileiro. Além disso, o cenário se mantém favorável para as exportações que, se de um lado sofrem com o dólar mais baixo, têm sido beneficiadas com a alta das commodities no mercado internacional. "A recomendação dos fundos cambiais é sempre para quem tem compromissos em dólar ou planeja uma viagem ao exterior", diz o gerente de Produtos da área de gestão de recursos do Itaú, Fábio Garcia. "Não há sugestão para investimento." Mesmo se o objetivo for possuir uma reserva de valor para gastos futuros em moeda estrangeira, a alternativa pode ser considerada válida, mas apenas como diversificação de carteira de investimentos, diz Rached, do BNP. Do ponto de vista especulativo, a bolsa parece um investimento bem mais atrativo para os investidores, avalia. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, o dólar à vista operou em baixa, apesar das compras do Banco Central. A moeda americana caiu 0,53% e encerrou cotada a R$ 2,236 na compra e R$ 2,238 na venda. Eduardo Jurcevic, do Banco Real, acrescenta que o movimento da semana passada deixou o dólar mais volátil do que o próprio mercado acionário. "Não dá para fazer nenhuma orientação no sentido de o investidor tentar acertar qual o melhor momento de entrar ou sair para se aproveitar desse momento", diz. "O câmbio ficou mais incerto do que a renda variável."