Título: Especialistas divergem sobre efeitos das salvaguardas contra China
Autor: Francisco Góes
Fonte: Valor Econômico, 10/10/2005, Brasil, p. A2

A regulamentação das salvaguardas contra a China divide a opinião de especialistas. Todos defendem o direito de o Brasil aplicar a medida de defesa comercial, mas não há consenso sobre suas implicações. Estudiosos do comércio exterior, em sua maioria, não acreditam que a China venha a retaliar exportações do Brasil como resposta à decisão do governo Lula. Mas há quem considere possível uma resposta chinesa dependendo da extensão das salvaguardas em termos de setores e produtos. "A probabilidade de retaliação não é zero", avalia Cláudio Frischtak, presidente da Inter B Consultoria Internacional de Negócios. Ele considera que os chineses "jogam pesado", têm um projeto nacional de longo prazo e sabem que muitos países são dependentes de suas importações. Este não é propriamente o caso do Brasil, um parceiro estratégico da China na América do Sul. "Se por um lado, eles (os chineses) teriam incentivo à retaliação; por outro sabem que retaliar tem custo", ponderou. Na visão de Frischtak, é preciso ter consciência que as salvaguardas são medidas temporárias com efeito limitado e não vão "salvar" a indústria brasileira. Ele defendeu que a medida seja aplicada de forma limitada, localizada e com prova efetiva do dano. E previu que as medidas não afetarão a relação bilateral. Renato Amorim, secretário-executivo do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), avalia que não há razão para o governo chinês retaliar exportações brasileiras e não acredita em abalo da relação bilateral, o que só poderia ocorrer se houvesse o uso indiscriminado das salvaguardas. Na quinta e sexta-feira, o CEBC promove seminário em São Paulo para discutir como as empresas e o governo devem se preparar para fazer frente ao fenômeno China. Na opinião de José Augusto de Castro, vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a China depende mais do Brasil do que o contrário. Os chineses, lembrou, são grandes importadores de alimentos e de commodities, como minério de ferro. Na sua opinião, seria mais fácil para o Brasil substituir importações da China do que a China trocar o Brasil por outro fornecedor. A China é o principal fornecedor de coque metalúrgico do Brasil, exportação que tende a cair com os investimentos na produção do insumo feitos pelas siderúrgicas locais. Castro defendeu a regulamentação das salvaguardas e salientou que o superávit de cerca de US$ 1 bilhão que o Brasil deverá ter no comércio com a China este ano deverá se transformar em déficit em 2006 e 2007. "Sem as salvaguardas, os chineses continuarão a ocupar mais e mais espaços no Brasil", previu. Sandra Rios, consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), lembrou que vários países já regulamentaram salvaguardas contra a China. "Por que o Brasil não poderia regulamentar?", argumentou. A medida, frisou, se dá no contexto do processo de ingresso da China à Organização Mundial do Comércio (OMC). Na opinião de Sandra, o Brasil optou por negociar com a China antes de regulamentar as salvaguardas e a regulamentação não significa seu uso indiscriminado. "Se aplicar de acordo com os critérios estabelecidos, não haverá problema", previu. Ela também não acredita que a China deixará de importar produtos do Brasil como represália. "Se isso acontecer, o Brasil pode questionar na OMC." Os fabricantes de tubos de aço no Brasil estão preocupados com compras do produto feitas na China por empresas do Ceará e Pernambuco, mas consideram que os volumes ainda não são significativos para para pensar no uso das salvaguardas.