Título: Cartão de visita
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 27/04/2010, Mundo, p. 21

Brasil-Irã

Ministro Celso Amorim reúne-se hoje em Teerã com Mahmud Ahmadinejad para preparar a esperada viagem do presidente Lula à República Islâmica. Na agenda, gestões para a busca de uma saída ao impasse nuclear com o Ocidente

Após passar pela Turquia e pela Rússia, onde intercedeu mais uma vez por uma solução negociada em relação ao programa nuclear do Irã, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, chegou a Teerã para reafirmar o apoio ao desenvolvimento do ¿programa nuclear pacífico¿ de Teerã. Hoje, quando encontrar-se com o presidente Mahmud Ahmadinejad, Amorim não apenas vai reiterar que o Brasil se opõe às sanções propostas por Washington, como vai dar um retorno sobre as conversas que manteve sobre o tema com os colegas turco, Ahmet Davotoglu, e russo, Serguei Lavrov. A viagem do chanceler prepara a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Moscou e Teerã, na segunda semana de maio.

Amorim foi recebido ontem pelo presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, e pelo secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Said Jalili, com quem teve conversas ¿positivas¿. ¿Defendemos para o povo iraniano o mesmo que para o povo brasileiro, ou seja, o direito a desenvolver atividades nucleares pacíficas¿, afirmou Amorim após as reuniões. Segundo a agência de notícias Isna, o ministro classificou como ¿injustas¿ as possíveis sanções da comunidade internacional contra Teerã e declarou que o Brasil percebe a necessidade da presença ativa do Irã nas relações internacionais.

Ao lado do visitante, Jalili aproveitou para criticar as medidas que vêm sendo discutidas pelo Ocidente. ¿Votar resoluções e impor sanções não é um enfoque correto para estabelecer um diálogo com o Irã¿, afirmou. ¿O sensacionalismo e a agitação (dos ocidentais) não influirão de maneira nenhuma na vontade de resistir do povo iraniano.¿

Em relação à visita de Lula, Amorim disse que o Brasil pretende reforçar as relações bilaterais(1) com o Irã ¿em vários campos¿, e que a ida a Teerã é um importante sinal da determinação brasileira. Nos encontros que terá hoje com o colega Manouchehr Mottaki e com Ahmadinejad, serão abordados ¿os direitos do Irã de explorar suas competências científicas dentro das regras da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA)¿, segundo o porta-voz da chancelaria iraniana, Ramin Mehmanparast.

Sul-Sul Após o encontro com Amorim, Jalili, principal negociador do país para a questão nuclear, disse que a cooperação em temas como a cobrança do desarmamento das potências nucleares é uma oportunidade de ¿reforçar a cooperação¿ entre os países do Hemisfério Sul. Segundo ele, a expansão da cooperação entre Irã, Brasil e outros países que seguem o mesmo caminho poderá ser ¿eficaz para o desenvolvimento do mundo¿.

Para Celso Lafer, que foi chanceler durante o segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, as visitas de Amorim e de Lula reforçam uma ¿política equivocada¿ do atual governo. ¿É legítimo que a Turquia faça um esforço pró-diálogo com o Irã, porque esse é um problema de segurança na região, mas o Brasil está indo além do que precisa e colocando em questão um ativo importante, que é a sua credibilidade internacional¿, opina. Segundo o ex-chanceler, a política externa do Brasil está com ¿um problema de dosagem¿. ¿A diferença entre o veneno e o remédio é a dosagem. Na diplomacia também é assim¿, compara.

Lafer cita os movimentos recentes de Teerã ¿ como os testes com mísseis e as declarações de Ahmadinejad de que pode enriquecer urânio até a 80% ¿ como indicações de que o regime islâmico não está disposto a conversar. ¿O Brasil está se isolando cada vez mais, e isso não é interessante para o país¿, alerta. Contudo, o cientista político David Fleischer, da Universidade de Brasília (UnB), acredita que o Brasil deve continuar tentando facilitar o diálogo entre Teerã e o Ocidente. ¿Há uma corrente que defende que o presidente americano, Barack Obama, não condena totalmente o contato do Brasil com o Irã. E nós temos esse canal aberto, vamos ver o que vamos conseguir.¿

1 - Olho nos negócios No caso de Brasil e Irã, a aproximação política tem sido diretamente proporcional ao aumento do interesse econômico mútuo. Quando veio a Brasília, em novembro, o presidente Mahmud Ahmadinejad trouxe 300 empresários de diversos setores. Há duas semanas, foi o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, quem desembarcou em Teerã com uma comitiva de 86 representantes de empresas ¿ desde alimentícias até montadoras de veículos. Os dois governos já negociaram a redução de tarifas sobre uma série de produtos, além de acordos de cooperação para construção de hidrelétricas. Nos sete anos de governo Lula, o volume do comércio entre os dois países quase triplicou, chegando a US$ 1,2 bilhão em 2009.

Veto ¿satânico¿

No momento em que os Estados Unidos tentam convencer os demais membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas a adotar novas sanções contra Teerã, o presidente iraniano, Mahmud Ahmadinejad, voltou a atacar o organismo. Segundo o líder, o poder de veto de que desfrutam EUA, França, Reino Unido, Rússia e China é um ¿instrumento satânico¿, usado para ¿oprimir e destruir a verdadeira natureza da humanidade¿. Sem saber se pode contar com Rússia e China ¿ que relutam em bater o martelo a favor das punições, mas não se fecham a conversar com Washington sobre elas ¿, o Irã busca apoio cada vez mais entre os membros não permanentes do Conselho, entre eles Brasil, Turquia, Áustria e Bósnia ¿ onde o chanceler Manouchehr Mottaki fez uma escala ontem.

¿A humanidade não precisa nem de bomba atômica nem de invasão, nem sequer do Conselho de Segurança ou do direito de veto¿, disse Ahmadinejad em um seminário, segundo a agência iraniana Isna. Mottaki também criticou, em Sarajevo, a diferença entre os que têm e os que não têm direito de veto. ¿Todos os 10 membros não permanentes do Conselho de Segurança deveriam desempenhar seus papéis responsavelmente e tomar decisões numa atmosfera democrática¿, afirmou.

O chanceler iraniano visitou a Bósnia depois de ir a Viena, na Áustria, onde se encontrou com o secretário-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Yukio Amano. Segundo fontes diplomáticas, porém, as conversas sobre a proposta da agência para fornecimento de combustível nuclear para Teerã não avançaram muito. Mottaki aproveitou para pedir apoio também ao governo austríaco, durante reunião com o colega Michael Spindelegger.

Em coletiva com o chanceler austríaco, no domingo, o representante iraniano revelou que os dois conversaram sobre formas de trocar o combustível nuclear do Irã. ¿Enfatizei que um membro do Conselho de Segurança tem uma enorme responsabilidade e deve prestar atenção aos direitos de todos os países-membros da ONU. Nossas conversas sobre a fórmula para a troca de combustível foram positivas e podem continuar¿, afirmou. Mottaki disse ainda que as sanções não são uma ¿ação apropriada¿: ¿Punir um país que não cometeu nenhum erro só leva a uma diminuição da posição do Conselho de Segurança.¿

Nostalgia revolucionária Os iranianos recordaram no domingo um costume inaugurado com a Revolução Islâmica de 1979, cultivado durante a guerra com o Iraque (1980-1988) e deixado no esquecimento sob a Presidência do reformista Mohammad Khatami. Pisotear bandeiras dos Estados Unidos, e ocasionalmente também de Israel, chegou a ser um ¿ritual¿ diário, especialmente durante a ocupação da embaixada americana, entre novembro de 1979 e janeiro de 1981. No domingo, o hábito foi retomado nas comemorações pelo 20º aniversário de uma frustrada tentativa de resgate militar dos reféns, que terminou com dois helicópteros dos EUA se chocando sobre o deserto. O fiasco custou a reeleição do presidente Jimmy Carter.