Título: China não retaliará Brasil, diz embaixador
Autor: Raquel Landim
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2005, Brasil, p. A4

Relações Externas Itens em disputa somam só 2% do comércio bilateral, avalia Yuande

O embaixador da China no Brasil, Jiang Yuande, disse ontem que "a porta ainda está bem aberta" para a negociação entre os dois países. Ele ressaltou que a relação bilateral não pode ser abalada por "pequenos problemas" e descartou a possibilidade de a China retaliar o Brasil por conta da regulamentação das salvaguardas contra o país. "A parceria estratégia entre China e Brasil é determinada pelos interesses nacionais, estratégicos, não por interesses parciais", afirmou Yuande, ressaltando que os produtos que provocam divergências entre os dois países representam 2% do comércio bilateral. "Meu governo está tentando todo o possível para retomar as conversas e procurar uma solução que satisfaça as duas partes", completou o embaixador. Ele se refere à retomada das negociações para um acordo de restrição voluntária das exportações chinesas para o Brasil, que não foi alcançado durante a visita do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, a Pequim no fim de setembro. Sem obter um acordo, o governo brasileiro regulamentou as salvaguardas contra a China previstas na Organização Mundial de Comércio (OMC), e o setor têxtil já apresentou as primeiras petições ao Departamento de Defesa Comercial (Decom). Yuande disse que seu governo não ficou decepcionado com a atitude brasileira. "Somos um país muito aberto a negociações e compreendemos as preocupações da parte brasileira", ressaltou o embaixador, que participou ontem da conferência internacional "Efeito China", promovida pelo Conselho Empresarial Brasil-China em São Paulo. Também presente ao evento, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, afirmou que o governo brasileiro aguarda a vinda de uma missão chinesa ao país para retomar as negociações do acordo de restrição voluntária. A data da visita não está marcada. Ramalho disse ainda que as importações brasileiras provenientes da China estão aumentando acima da média. De janeiro a setembro deste ano, na comparação com igual período de 2004, as importações totais do Brasil aumentaram 19,6%, enquanto as compras de produtos chineses cresceram 47,8%. O secretário atribui a explosão das importações chinesas tanto ao aumento das compras de bens de consumo quanto às maiores compras de insumos pela própria indústria brasileira. Yuande desafiou os empresários a investirem mais na China e afirmou que os "vizinhos do Brasil" estão mais agressivos e trabalhando para ocupar o lugar do país no mercado chinês. Segundo o embaixador, o Produto Interno Bruto (PIB) da China saltou de US$ 140 bilhões, em 1978, para US$ 1,6 trilhão em 2004. Ele afirmou que a China importou US$ 651,4 bilhões em 2004, mas pretende comprar US$ 1 trilhão em 2010, e US$ 4 trilhões até 2020. O presidente do Conselho Empresarial Brasil-China e da Vale do Rio Doce, Roger Agnelli, disse que não acredita em uma retaliação da China contra o minério de ferro brasileiro por conta da regulamentação das salvaguardas. "A salvaguarda é um direito que o país tem. Só que é técnica, não é mais política", disse o executivo, acrescentando que o setor que se julgar prejudicado pela China terá que provar os danos.