Título: Na mira da racionalidade
Autor: Maria Cristina Fernandes
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2005, Política, p. A6
Quanto mais pobre, mais favorável à proibição do comércio de armas o brasileiro tende a ser. Quanto mais rico, mais propenso é a votar pelo 'não' no referendo do dia 23. Uma interpretação possível para os cruzamentos colhidos pelas pesquisas de opinião é a de que os mais pobres, só tendo a vida para defender, crêem que a arma não lhes serve para este fim. Os mais ricos, que também cuidam pela defesa de seus bens, parecem acreditar que a arma livre lhes é de mais serventia. Na guerra de números em que se transformou a campanha em torno do plebiscito - cada um tem o seu e este sempre é pertinente ao argumento em questão - é o viés de renda que parece oferecer novas luzes ao debate. Pode até parecer óbvio que o 'sim', sendo majoritário nas pesquisas, tenha a adesão maciça entre eleitores de baixa renda, que compõem a maioria da população. O que não é óbvio e que confronta muitas das teorias em vigor sobre a violência é que, nos mesmos estratos sociais em que o crime promove seus recrutamentos, é alta a aversão às armas. O argumento mais recorrente da frente pelo 'não' é que o Estado, além de não garantir a defesa dos cidadãos quer desarmar os homens de bem. É uma colocação difícil de se rebater se considerados a ineficiência das polícias e o volume das estatísticas - nem sempre confiáveis - das armas clandestinas em poder de bandidos. O argumento se desguarnece, no entanto, quando testado às avessas. Não há garantias de que os homens de bem, armados, sejam eficazes no combate ao crime. A substância do argumento pelo 'não' é a descrença no monopólio da força pelo Estado. É uma opção que só encontra explicação pelo viés de classe. Nas áreas mais ricas, as armas de fogo são usadas em crimes cometidos por bandidos, cujo combate pelo Estado deixa a desejar. Sobre estes crimes, a proibição do comércio é, reconhecidamente, menos eficaz, o que confere racionalidade aos eleitores do 'não'. É nas áreas mais pobres que há a maior incidência de mortes por armas de fogo causadas por acidentes, brigas familiares e de bar. É nesses crimes que a proibição do comércio de armas - mesmo os partidários do 'não' o reconhecem - pode ter maior eficácia. Está, portanto, mais do que justificada a adesão dos mais pobres ao 'sim'.
Ricos e pobres têm suas razões no referendo
O que tem chamado a atenção de pesquisadores que vêm analisando os questionários das enquetes sobre o referendo é que esse viés de classe, nítido desde sempre, não tem passado incólume ao início da propaganda gratuita no rádio e na televisão. A audiência aos programas tem ficado ao redor de 80%, o que significa mais do que o dobro daquela dos programas de campanhas eleitorais tradicionais. Também é bem superior a atenção dispensada aos programas - medida, além do número de televisores ligados, pelo número de pessoas que não se levantam para ir à cozinha ou para atender ao telefone enquanto a propaganda está no ar. A brevidade do programa - quatro minutos e meio, uma vez por dia - comparativamente ao interminável horário eleitoral gratuito bienal, também ajuda a explicar a diferença de audiência. Até agora a fidelidade do eleitor ao programa eleitoral tem beneficiado a campanha do 'não'. Na primeira semana de horário eleitoral, os partidários da proibição do comércio perderam algo em torno de sete pontos percentuais, enquanto os favoráveis à livre comercialização, ganharam cerca de nove. Pesa a favor dos partidários do 'não' uma percepção generalizada de que sua campanha é mais informativa, traz mais dados, enquanto a do 'sim' apela mais à emoção e acaba empobrecida pela idéia repisada de que ser favorável à proibição do comércio de armas é 'ser do bem'. Paradoxalmente, o que pode ainda acabar pesando a favor da campanha contrária ao comércio de armas é a importância do meio caseiro na decisão de voto. As conversas em família são a segunda fonte de informação dos eleitores, só perdendo para o noticiário da televisão. É na família que ganha força o peso da opinião feminina, que confunde as fronteiras de classe balizadoras das pesquisas. Ricas ou pobres, as mulheres têm uma adesão ao 'sim' quase duas vezes maior do que a dos homens. E tentarão até o dia 23 influenciar seus pais, filhos e maridos a votar pelo pela proibição às armas.