Título: Berzoini e Pont divergem sobre alianças
Autor: Caio Junqueira
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2005, Política, p. A6

Na primeira entrevista coletiva como presidente eleito do PT, Ricardo Berzoini pregou a unidade entre todas as tendências partidárias de forma que entrem em 2006 preparadas para defender o governo e a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No entanto, o novo dirigente já pode esperar por dificuldades na construção deste consenso, a começar pela política de alianças para a campanha eleitoral. Berzoini afirmou que a composição com outros partidos está em aberto, o que incluiria até mesmo a atual esfacelada base governista com PTB, PP e PL. "Vamos trabalhar para fortalecer nossa relação com aliados tradicionais do PT e também para dialogar com a nossa base aliada para avaliar qual a perspectiva de cada um dos partidos nas eleições de 2006. A melhor política para o PT é não estabelecer nenhum veto prévio e dialogar com os partidos a partir da dinâmica de cada um e a partir da estratégia que vão desenvolver para as eleições de 2006. (A atual aliança) Pode ser que se repita, pode ser que não", disse. A hipótese defendida por Berzoini foi, em seguida, rechaçada por Raul Pont, candidato da Democracia Socialista derrotado no segundo turno, mas que é o mais cotado para assumir a secretaria-geral do PT, o segundo cargo mais importante na hierarquia partidária. "Se não tivermos nenhum critério, será a negação do partido. Seria uma incoerência, um estelionato ao eleitor. Não posso me apresentar com um nome e fazer um outro programa para o eleitor. A política de alianças é um projeto estratégico. Se sou de partido socialista, não posso fazer alianças com defensores do capitalismo." Mesmo que não assuma a secretaria-geral, que alega ser incompatível com o exercício de seu mandato de deputado estadual, Pont e sua tendência, a Democracia Socialista, terão um peso ampliado no PT. O ex-prefeito de Porto Alegre questionou até mesmo uma aliança com o PMDB, partido que o governo mais tem interesse para uma composição em 2006. "O dilema do PMDB é que o Requião (governador do Paraná) é uma coisa e o Rigotto (governador do RS) é outra. Estamos no RS e o governo do Rigotto é um desastre. Não tem um indicador que seja melhor que o governo anterior (do petista Olívio Dutra). Além disso, não há qualquer convergência ideológica." Berzoini e Pont divergiram ainda quanto às realizações do governo Lula. O novo presidente do PT fez ampla defesa da atual gestão federal em diversos setores, com destaque para área econômica, que tem criticado com freqüência. "O governo Lula faz um bom governo, que muda a realidade do povo. Implementou programas sociais de grande alcance, faz uma política externa qualitativa. Se compararmos qualquer área do atual governo com o governo anterior, somos melhores. A relação dívida/PIB diminuiu, os números da balança comercial e da balança de pagamentos foram revertidos graças à política ousada que aumentou as exportações. O saldo da balança comercial é recorde e também conseguimos combinar política macroeconômica austera com microeconômica, que viabilizou investimentos." Em contrapartida, Pont assinalou para a defesa do governo Lula, mas disse ser necessário o reconhecimento de deficiências, que, segundo ele, estão no valor do salário mínimo, na correção da tabela do Imposto de Renda, na universalização do serviços públicos e em uma maior participação popular no governo. "Isso não significa que vamos romper. Digo que é insuficiente para ganhar as eleições. Se não mudar alguma coisa, será difícil mobilizar a militância para o ano que vem. É necessário sensibilizar o governo para que ele ouça o partido."