Título: Lula diz que haverá denúncias até 2006
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2005, Política, p. A7

Crise Em encontro com petistas, presidente diz que as acusações perderão efeito em dois ou três dias

Mesmo sem admitir abertamente que é candidato à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse ontem a um grupo de petistas residentes em Portugal, em reunião fechada na cidade de Porto, que a oposição vai adotar um ritmo "sistemático" de denúncias contra ele e contra o governo até 2006, mas que essas acusações "não têm mais efeito e desaparecem depois de dois, três dias". Conforme relato de participantes da reunião, Lula demonstrou crer no arrefecimento da crise política. O presidente disse aos petistas que só no momento adequado vai se pronunciar sobre a reeleição. Por enquanto, disse Lula, "a hora é de fazer". O presidente acredita que apenas um bom desempenho de sua gestão lhe dará tranqüilidade para iniciar o debate da reeleição. Lula recebeu o grupo de aproximadamente 10 petistas após conversar, também reservadamente, com representantes da comunidade brasileira em Portugal. O Núcleo do PT em Portugal já havia se encontrado com Lula em 1989, 1995, 2001 e 2003. Os petistas disseram ao presidente que estão acompanhando, de longe, todos os passos da crise. "Levamos a nossa solidariedade a Lula, porque estamos acompanhando a crise e reconhecemos que esse momento político é importante, pois a eleição se aproxima", disse Manuel Andrade, um dos coordenadores do Núcleo PT. O presidente passou boa parte do encontro, segundo Andrade, informando os petistas sobre os "avanços" dos programas sociais implementados em seu governo e enfatizando que os indicadores econômicos no Brasil são bastante positivos. O Bolsa Família será um dos pilares da reeleição de Lula, além do cenário econômico. O presidente mencionou também os índices de geração de emprego formal e salientou que, para o governo, a inserção de jovens no mercado de trabalho é prioridade. Ao ser questionado sobre as ações do Fome Zero pelos petistas que vivem no exterior, o presidente afirmou que o governo está fazendo todos os esforços para unificar os programas sociais. É recorrente no governo a avaliação de que os efeitos da crise são cada vez menores. No dia em que o presidente desembarcou em Porto, o ministro Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência) fez exatamente a mesma avaliação que Lula levou aos petistas. Dulci acusou a oposição - mais especificamente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ex-ministros do governo tucano - de agir de forma sectária e irresponsável ao defender que Lula desistisse abertamente de ser candidato à reeleição. O governo já tem inclusive uma espécie de "catálogo" de todas as denúncias que envolvem direta ou indiretamente o presidente e seus parentes, como o filho Fábio e o irmão Vavá. Segundo Dulci, são 14 denúncias. O ministro também enfatizou que o governo tem o dever de "governar intensamente o país, que está crescendo". Os petistas residentes no Brasil discutiram também com Lula o processo de eleições diretas no PT para a escolha do novo presidente da legenda. Segundo Manuel Andrade, foi um conforto para os militantes perceber que a diversidade no PT permanece. "Essa composição diversificada do diretório é salutar", ponderou o petista.