Título: Contrabando expõe gado brasileiro
Autor: Mauro Zanatta
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2005, Agronegócios, p. B12

Sanidade Ganha força teoria de que foco no MS teve origem no Paraguai

Autoridades federais e estaduais estão praticamente convencidas de que a origem do foco de febre aftosa em Eldorado (MS) está no contrabando de gado do Paraguai. O Ministério da Agricultura tem informações, repassadas por autoridades policiais da região, de que pelo menos 12 mil cabeças de gado paraguaio seriam abatidas por frigoríficos em Mato Grosso do Sul diariamente. E o problema atingiria, segundo fontes oficiais, um raio de até 200 quilômetros na faixa de fronteira. O Mato Grosso do Sul abate 320 mil cabeças/dia no Estado e manda 80 mil bovinos para São Paulo. O Paraguai é livre da doença com vacinação, mas resiste em adotar maciçamente o procedimento para erradicar a aftosa de seu território. O Brasil doou por duas vezes vacinas ao Paraguai, mas não obteve sucesso. "Temos deixado essa questão embaixo do tapete para atuar só de forma pontual", diz o superintendente federal da Agricultura no Estado, José Antônio Felício. "A fronteira tem que ser área de segurança nacional, mas não temos essa cultura". Segundo ele, é preciso rastrear a compra e a venda do gado da região para punir "maus fazendeiros" da região. O governador do Estado, José Orcírio Miranda, o Zeca do PT, admitiu ontem que o gado tem atravessado a fronteira. "Me estranha muito que todos os focos de aftosa no Estado, coincidentemente, aconteçam perto da fronteira", disse ele após reunião com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues. Mas o presidente da Federação de Agricultura do Estado, Leôncio Brito rebate a tese. "Nunca jogamos nada para debaixo do tapete". Mas admite: "Não vou falar que todo mundo é anjo. Toda profissão tem gente esperta". Os produtores criticam a fiscalização insuficiente do governo e acusam o Paraguai de usar vacinas de má qualidade, batizada "água suja" pelos criadores. Os pecuaristas falam em "alargamento da fronteira epidemiológica". Quer dizer, entrar no território paraguaio e vacinar os bovinos neste raio da fronteira. O foco de aftosa parece ter se alastrado pela região sul do Estado. Felício informou que o gado de outra fazenda, vizinha à propriedade infectada pela aftosa e cortada pela BR 163, também registra os sintomas da doença - aftas, baba em excesso e feridas nas patas. O Ministério da Agricultura tem quase certeza de que outra fazenda, na vizinha Japorã (MS), está contaminada pelo vírus. O secretário estadual de Produção, Dagoberto Nogueira, admite que os sintomas são parecidos, mas diz que não é possível adiantar resultados. Para minimizar o estrago da aftosa, o ministro Roberto Rodrigues viajará a Moscou para tentar convencer o principal mercado comprador de carne bovina brasileira a restringir o embargo à região do foco, livrando municípios e Estados vizinhos. Rodrigues também pediu R$ 78 milhões para reforçar a defesa sanitária no país. E também anunciou, finalmente, a criação de um comitê de emergência para acompanhar as ações de combate à febre aftosa no Estado.