Título: Tensão nos EUA amplia risco-país
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 14/10/2005, Finanças, p. C2

Os mercados brasileiros ajustaram-se ontem à turbulência externa desencadeada na quarta-feira, dia em que não operaram devido a feriado nacional. Como os mercados externos continuaram piorando ontem, o ajuste tornou-se intenso e dramático no começo da tarde. Mas houve boa melhora antes dos fechamentos. O dólar chegou a subir 2,01%, cotado a R$ 2,2790, mas, mesmo depois de o Banco Central ter realizado seu sétimo leilão de compra de outubro, às 15h35, a moeda fechou com valorização menos acentuada, de 1,02%, a R$ 2,2570. Trajetória similar foi traçada pela Bovespa. Na mínima do dia, a Bolsa tombou 4,17%. Recuperou-se depois para encerrar o pregão em queda de 2,39%, interrompendo seqüência de três altas. Apesar de mais ajustado que os outros segmentos porque operou na quarta-feira, o risco-país subiu ontem 2,89%, a 391 pontos-base. Nesta semana já avançou 5,11%. A agitação externa decorre da diminuição das posições mais arriscadas, firmadas em ações (tanto nas Bolsas dos países desenvolvidos quanto nas dos emergentes) , bônus e moeda de países emergentes, e no mercado de commodities. O petróleo não é exceção. Ontem o barril caiu US$ 1,07 em Nova York, para US$ 63,05. Teme-se uma retração na liquidez internacional em consequência da aceleração dos juros americanos, seja os de mercado (as taxas mais emblemáticas são as dos títulos de 10 anos do Tesouro americano), seja os controlados diretamente pelo Federal Reserve (Fed). Na quarta-feira, ao advertir para o que classificou de "especulações excessivas", o presidente do Fed, Alan Greenspan, ampliou o receio de apertos adicionais na política monetária americana. O cenário degradou-se ontem devido a rumores de que o Índice de Preços ao Consumidor (CPI, em inglês), de setembro, a ser divulgado hoje, irá superar a expectativa média, já elevada, de 0,90%. As preocupações com inflação e juros provocam estilhaços no mercado de crédito americano. O risco passa a ficar insuportável para alguns investidores. O risco da GM no mercado de swap de crédito em default superou os 900 pontos-base ontem. Gerou mal-estar também a informação de que uma corretora independente de futuros, a Refco Inc., limitou o saque de clientes. Já brotaram rumores sobre dificuldades de hedge funds. Para analistas, o dia só não foi pior ontem por causa da ausência de importantes investidores devido a feriado judaico. Os mercados oscilaram ao sabor do sobe-e-desce dos T-Notes de 10 anos. Na máxima, os juros chegaram a 4,50%, ante 4,44% na véspera. E fecharam a 4,47%. Os investidores estão testando o patamar de 4,50%. Se houver séria resistência, o juro recua a 4,40% e os mercados voltam a sossegar. Mas se for rompido com consistência, não ficará em 4,50%. Deve buscar os 4,80%, um patamar muito ruim para o Brasil. A última vez em que o juro de 10 anos esteve em 4,80%, em maio de 2004, o risco do Brasil bateu em 805 pontos-base, a Bovespa desceu a 17.604 pontos e o dólar chegou a R$ 3,21.

Taxa de juros americana testa nível perigoso

Os juros futuros refletiram ontem a saída de investidores estrangeiros vendidos em dólar futuro. A alta dos contratos negociados no mercado futuro da BM&F foi geral, mas os longos (justamente os que fecham a arbitragem financeira dos estrangeiros vendidos em dólar) foram os que mais subiram. Enquanto para a virada do mês, o CDI previsto avançou de 19,23% para 19,25%, o contrato para janeiro de 2007 saltou 0,20 ponto, de 17,69% para 17,89%. O contrato para janeiro de 2008 avançou de 17% para 17,27%. No vencimento mais curto está embutida a hipótese de corte da Selic de 0,25 ponto percentual na reunião do Copom do BC marcada para a próxima quarta-feira. O Copom recebeu ontem três argumentos em favor de uma decisão conservadora. A tendência de queda da taxa Selic, iniciada no mês passado, se manteria, mas, ao invés de intensificar o corte para 0,50 ponto percentual, o BC insistiria no ritmo de 0,25 ponto. O primeiro pretexto é a piora do cenário internacional. A inversão do atual posicionamento dos fundos especulativos pode provocar alta acelerada do dólar, mesmo que o fluxo de recursos continue positivo. O segundo é o recrudescimento da inflação presente. Mais do que refletir a alta dos combustíveis, a primeira quadrissemana de outubro do IPC FIPE - 0,59% ante 0,44% em setembro - mostra o esgotamento do período de deflações motivadas pelo item alimentação. O terceiro foi a 157ª Sondagem Trimestral da Indústria de Transformação, divulgada ontem pela FGV. Pela primeira vez desde outubro de 2004, houve melhora na avaliação do ambiente atual para os negócios e às perspectivas para os próximos meses. A situação atual dos negócios é considerada boa por 21% e fraca por 22% das empresas. Do universo de 417 empresas, subiu de 9% para 11% a fatia das que consideram forte o nível atual da demanda. E recuou de 34% para 21% as que qualificam como fraco o nível atual da demanda. São três pontos aos quais o Copom costuma dedicar especial atenção. Sobretudo a questão da demanda é vista como crucial. Os efeitos sobre o câmbio derivados de uma fuga de capital estrangeiros são abordados apenas de forma marginal já que a versão oficial é de que o juro não faz o câmbio, nem vice-versa. Mas todos sabem que a causalidade é recíproca. Por excesso de conservadorismo, o BC pode ter perdido oportunidade de ouro para reduzir a Selic mais rápida e fortemente.