Título: Lula prevê acordo entre UE e Mercosul até o fim do ano
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 18/10/2005, Brasil, p. A4
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem a um grupo de aproximadamente 350 investidores italianos da Confindustria (Confederação Geral da Indústria Italiana), em Roma, que crê na conclusão de um acordo definitivo entre União Européia e Mercosul até o fim deste ano. Repetindo o tom entusiasta de seus últimos discursos sobre a situação econômica brasileira, Lula afirmou que "essa é a vez e a hora do Brasil", e que o país vive um "momento virtuoso". O século XXI, segundo ele, será do Brasil. "Quero convidá-los a apostar no Brasil. Estamos consolidando a rota da estabilidade econômica", afirmou o presidente. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que assinou o acordo de cooperação com a Confindustria, disse que estará hoje em Genebra para discutir com o diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), Pascoal Lamy, as perspectivas do acordo comercial União Européia-Mercosul. "Há necessidade que essas negociações caminhem", defendeu Skaf. Lula disse aos empresários que durante o atual governo foram construídas as condições para que o país tenha "solidez" econômica. A redução gradual dos juros e a ampliação das concessões de crédito são dois gargalos da economia para os quais o governo pretende dar sinalizações positivas, disse. "In bocca al lupo", disse Lula aos empresários, numa truncada pronúncia italiana da expressão que quer dizer "boa sorte". Empresários europeus de visão podem apostar nas parcerias público-privadas (PPPs), disse Lula, que enfatizou a estratégia brasileira de ter pelo menos um grande investimento em infra-estrutura em cada país da América Latina. O presidente da Fiesp demonstrou otimismo com a possibilidade de investimentos italianos no Brasil crescerem de forma expressiva. Hoje, a troca comercial entre os dois países é incipiente (apenas US$ 5 bilhões), apesar de os investimentos da Itália no Brasil terem crescido 300% na última década. Uma missão de empresários italianos estará no Brasil em março do próximo ano. No segundo semestre de 2006, são os brasileiros que visitam a Itália. "A Itália tem experiências muito interessantes, sobretudo os Arranjos Produtivos Locais (APLs) e os distritos industriais italianos", disse Skaf. O mundo globalizado, afirmou o presidente Lula, "exige ousadia". Pequenas e médias empresas do Brasil e Itália, segundo ele, podem abrir interessantes frentes de investimento tendo como fonte de inspiração a Emilia Romagna (região de cooperativas na Itália, coordenada por comunistas). O presidente repetiu um discurso recorrente que adotou após ter sido eleito, de que seu governo não poderia decepcionar, porque as expectativas da população em torno de uma gestão do PT era enorme e as cobranças a ele, especialmente pelo setor produtivo, seriam maiores. Lula reiterou que a política econômica não muda de rota. "Iremos continuar com a política econômica como começo, meio e fim", afirmou. Luca Cordero di Montezemolo, presidente da Confindustria, comemorou a queda do risco-Brasil, que era de 2.400 pontos na eleição de Lula. Ele disse que as políticas econômica e fiscal do Brasil são severas e a inflação está sob controle. "Nossas empresas olham com interesse para as PPPs", afirmou Cordero. Os investidores europeus, segundo o ministro de Atividade Produtiva da Itália, Adolfo Urso, tinham receio de que a crise argentina pudesse contaminar o Brasil. "Hoje o Brasil tornou-se líder entre os países em fase de desenvolvimento", analisou Urso. Ele considera o país um aliado na luta contra a concessão de subsídios agrícolas e na necessidade de redução de tarifas no setor industrial. "O Brasil hoje é o símbolo da globalização", afirmou Urso. O presidente Lula enfatizou aos empresários que mais de 10% da população brasileira, o equivalente a 25 milhões de pessoas, é descendente de italianos.