Título: Lula diz não ter interesse em decidir reeleição agora
Autor: Maria Lúcia Delgado
Fonte: Valor Econômico, 18/10/2005, Política, p. A6

O discurso é de candidato, o PT se prepara para deflagrar o processo de reeleição, todos os ministros têm na ponta da língua uma resposta em uníssono sobre a crise política - "é complô da direita"-, foi claramente declarada e aberta a temporada de guerra ao PSDB, o adversário mais óbvio, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou em vão convencer jornalistas, ontem, em Roma, que tem tempo e pode esperar até maio de 2006 para anunciar se disputa novamente a Presidência. Após ser agraciado com a Medalha Agrícola da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) por seu empenho internacional no combate à fome, Lula assegurou que esse não é um tema para "discurso eleitoral". Enquanto a ordem no governo é apostar no esvaziamento da crise política, Lula afirmou no discurso da FAO que cabe ao Brasil dar exemplo aos países pobres "de severidade, de honestidade e de ética", pois só desta forma conseguirá convencer as pessoas da necessidade de agir com solidariedade no combate à fome. "Eu não estou candidato. É uma decisão que eu não tenho nenhum interesse de tomá-la agora. Eu tenho tempo. Quem precisou se filiar a partido político teve que tomar posição até 30 de setembro. Eu não tenho. Posso esperar maio", disse. O presidente afirmou que está tranqüilo porque "todo mundo sabe" o que ele pensa da reeleição. Lula assegurou que sua prioridade é aproveitar o bom momento econômico e fazer com que o Brasil tenha a oportunidade de participação mais eficaz no mundo. Quando questionado se seus discursos já antecipavam a plataforma política para 2006, Lula revidou: "Não posso influir na mente de cada um, que imagina o que eu quis dizer". Um dia antes, na reunião com políticos de esquerda da Itália, Lula deixou claro seu projeto eleitoral. Na viagem pela Europa, sobretudo ontem, no evento de comemoração dos 60 anos da FAO, ficou evidente que o presidente quer dar prioridade às ações sociais nos 14 meses de mandato que lhe restam, a fim de ter uma vitrine para a disputa. Ao fim do discurso na FAO, falando de improviso, Lula afirmou que o combate à fome "é um problema eminentemente político". Se não for tratada dessa forma, disse ele, a fome torna-se apenas uma estatística, um mero problema social a ser explorado em "discursos nas campanhas eleitorais". O presidente oficializou ontem, na FAO, a campanha "América Latina sem fome", cuja meta é combatê-la até 2020. Lula enfatizou a prioridade que o governo dá ao programa Bolsa Família, que será usado como peça-chave na campanha da reeleição, cujos resultados já começaram a ser propagados agora. "Já garantimos, nestes 34 meses de governo, a renda mínima a 7,7 milhões de famílias", afirmou ele. Se não quer fazer da fome um problema de estatística, o presidente se escora nos números na tentativa de convencer a população que seu governo teve sim um viés social. Além do Bolsa Família, o programa da merenda escolar também é identificado como um trunfo do governo: alcança 36 milhões de crianças, um aumento de 38%. "Estamos executando um amplo programa de reforma agrária. ", garantiu. Mencionou que dois milhões de famílias recebem recursos do programa de agricultura familiar (Pronaf). Como reforma agrária não é o forte de seu governo e até o Movimento dos Sem Terra (MST) tem feito ácidas críticas à administração federal petista, Lula brigou de novo com a estatística, que ora é instrumento, ora é inimiga: "Mais importante que gerar números recordes é assegurar que as necessidades dos sem-terra sejam atendidas". O governo brasileiro decidiu realizar em Porto Alegre, em março do próximo ano, a conferência internacional da FAO sobre reforma agrária. O presidente disse estar "convencido" de que é possível diminuir em 50% a pobreza mundial até 2015. Para isso, propõe uma parceria entre empresários, governos e sociedade civil para "o financiamento do desenvolvimento". Uma das idéias é a cobrança de contribuição sobre bilhetes aéreos internacionais - já há projeto-piloto em curso. Outra, de difícil aplicação, é a redução das taxas para remessas de recursos de emigrantes aos países de origem. Lula afirmou ainda que "o fim dos subsídios agrícolas é, sem dúvida alguma, a chave para o êxito da Rodada de Doha na Organização Mundial do Comércio (OMC)". Além de participar do encontro na FAO, Lula encontrou-se com o presidente da Itália, Carlo Ciampi, no Palácio Quirinale. Em seguida, fez uma palestra para empresários italianos. Ao fim do dia, embarcou para a Rússia, para a etapa final de sua viagem.