Título: Putin não garante apoio à reforma acelerada da ONU
Autor: Assis Moreira
Fonte: Valor Econômico, 19/10/2005, Brasil, p. A4
Relações externas No mundo globalizado "não existe Papai Noel", diz Lula
O presidente da Rússia, Vladimir Putin, não mencionou ontem, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apoio explicito à reforma acelerada do Conselho de Segurança das Nações Unidas, uma prioridade do governo brasileiro. Putin disse que seu país "aplaudia a política externa independente" do Brasil, e destacou que os dois países coincidiam em muitos pontos na agenda internacional, como uma nova ordem mundial multipolar. A Rússia quer mais tempo para que a reforma seja o menos "divisionista" possível - ou seja, prefere o consenso à votação. Segundo fontes diplomáticas brasileiras, está claro que Moscou não tem a mesma pressa que o Brasil, embora tenha sido um dos primeiros a apoiar a intenção brasileira de obter assento permanente no Conselho de Segurança. Um diplomata brasileiro disse, porém, que Moscou sabe que uma reforma no Conselho não pode sair por consenso. O Brasil estima ter perto dos 128 votos para ganhar uma votação na ONU pela reforma. Por sua vez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva justificou a aproximação estratégica com Moscou dizendo que "nesse mundo globalizado não há Papai Noel". Para Lula, "ninguém dará presentes ao Brasil e ninguém dará presentes à Rússia. Essa é uma disputa de conhecimento, de capacidade produtiva, de competitividade. Nessa disputa, temos que procurar os parceiros mais próximos". Em discurso no Kremlin, no ato de assinatura de três acordos de cooperação, o presidente Lula afirmou que a política externa brasileira leva em conta a relação estratégica privilegiada com a Rússia, mas pediu mais esforço bilateral para descobrirem "a plenitude das potencialidades bilaterais". Mais tarde, disse em entrevista que o Brasil se transforma de "país coadjuvante em artista principal na cena política internacional. Acabou o tempo em que o negociador brasileiro ia de cabeça baixa pedir favor a alguém. Nós não somos mais do que ninguém. Queremos ser apenas iguais. Queremos ser tratados como tratamos os outros e respeitados como respeitamos os outros". No seu estilo entusiasmado, Lula disse que a política externa brasileira visa criar condições para que os países em desenvolvimento "não sejam tão dependentes da União Européia e dos Estados Unidos". Lula destacou uma série de iniciativas, incluindo a organização de uma cúpula na Nigéria entre países africanos e da América do Sul, "tudo sem criar confrontação com União Européia e Estados Unidos". Putin e Lula se reuniram durante duas horas. Diante da imprensa, o presidente russo tinha o rosto fechado, às vezes fazia até careta. Mas diplomatas contaram que no encontro, longe dos refletores, o clima foi excelente. A declaração conjunta cobre reforma da ONU, comércio, energia, luta contra o terrorismo. Destaca também a formação de uma "aliança estratégica" bilateral. Os dois presidentes assinaram um protocolo entre a Agência Espacial Brasileira e a Agencia Espacial da Rússia sobre cooperação para modernização do Veículo Lançador de Satélites (VLS-1) na base de Alcântara. Além disso, foi assinado o contrato para o envio do primeiro cosmonauta brasileiro ao espaço, em 22 de marco de 2006. O tenente-coronel Marcos César Pontes, 42 anos, ficará dez dias no espaço e o Brasil pagará US$ 10 milhões. Um dos momentos de emoção ocorreu quando o presidente Lula tomou a iniciativa de chamar o cosmonauta brasileiro para apresentá-lo a Putin. Ele contou que vai levar ao espaço a bandeira brasileira e um chapéu de Santos Dumont. Pontes acha que o vôo vai ajudar o Brasil a exportar tecnologia. A Rússia e o Brasil também confirmaram que estão em fase adiantada de negociação para construção de satélites dentro do programa do Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB), conforme antecipado ontem pelo Valor. O documento fala que está em fase de negociação um programa conjunto para a construção de "equipamento espacial de telecomunicações". Lula igualmente destacou a disposição do construtor aeronáutico brasileiro Embraer fazer parceria com empresas russas para montar jatos ERJ-145 (50 assentos) na Rússia. Mas o presidente da empresa, Mauricio Botelho, atenuou o entusiasmo presidencial, assinalando que no momento só tem "intenção de estudar" o mercado russo, e tudo depende da demanda por jatos regionais na região. Os dois presidentes destacaram também a possibilidade de aumento da participação russa na construção de usinas hidroelétricas no Brasil e aproximação entre empresas de petróleo e gás, e na área química. Também querem explorar o potencial de cooperação técnico-militar.